maio 30, 2017

- Aqui está, adeus.


— Por que veio aqui?
— Tenho 24 anos. Quero lembrar-me disso pelo menos uma vez [...]. Eu te amo... E você já entendeu como. Mas dizê-lo hoje, nestas condições, é como se estivesse orando por um filho nosso que morreu.

Nunca mais a vi. E depois do fim da guerra, voltei à Grécia devido a um mau pressentimento. Não iria reencontrá-la. Você tinha ido embora sem nunca olhar para trás. Mas tive a impressão de rever seu rosto anos depois, nos últimos versos de uma poesia, como quando você se virou e com a mão livre na frente da nuvem dos cabelos, me disse adeus para entrar na escuridão.

Mulheres no Front (Valerio Zurlini, 1965)

abril 16, 2017

Um destinatário sem endereço


"Eu não me arrependo de você. 
Não, nada irá neste mundo apagar 
o desenho que temos aqui." 
(Caetano Veloso)

    Eu te escrevi algumas vezes, cartas sem endereço que foram desfeitas minutos depois. Após algum tempo, escrevi novamente, mas não conseguia finalizar, sempre faltava algo: um sentido, uma frase que não podia ser dita; talvez o ponto final não existisse para nós. Não sei por que logo hoje, algo embaçou meus olhos e cortou minha garganta, e não foram as palavras, essas que já não existem.
     Estou aqui porque pensei em você, sem remorso ou mágoa, juro que não doeu. Eu pensei em você de um jeito doce, como quando caminhamos nervosamente entre árvores ou ouvimos o som do mar, por um breve instante de paz. Lembrei de uma vez em que escutei seu sotaque numa fila de embarque, quis tanto que fosse você. Depois quase reconheci sua sombra dobrando a esquina, onde vi pela última vez seus grandes olhos brilhantes me encarando. Equilibrei-me no meio fio e segui em frente, embora eu nunca tenha saído do mesmo lugar.
     Há muito tempo deixei de me martirizar, me perdoei e te perdoei, por tudo de ruim que fizemos a nós mesmos, lá... Desde o início. Quem sabe um dia você me perdoe também. Talvez tenhamos feito à decisão mais sensata das nossas vidas (provavelmente a mais estúpida também). Só desejo que você esteja bem. Eu te amei muito, ouso dizer que 



abril 14, 2017

A descoberta do mundo



"(...) eu me transformara numa mocinha alta, pensativa, rebelde, tudo misturado a bastante selvageria e muita timidez. Antes de me reconciliar com o processo da vida, no entanto, sofri muito, o que poderia ter sido evitado se um adulto responsável se tivesse encarregado de me contar como era o amor. Esse adulto saberia lidar com uma alma infantil sem martirizá-la com a surpresa, sem obrigá-la a ter toda sozinha que se refazer para de novo aceitar a vida e os seus mistérios. Porque o mais surpreendente é que, mesmo depois de saber de tudo, o mistério continuou intacto. Embora eu saiba que de uma planta brota uma flor, continuo surpreendida com os caminhos secretos da natureza. E se continuo até hoje com pudor não é porque ache vergonhoso, é pudor apenas feminino. Pois juro que a vida é bonita."

A Descoberta do Mundo - Clarice Lispector