22 de março de 2016

A liberdade é a possibilidade do isolamento

       

       A liberdade é a possibilidade do isolamento. És livre se podes afastar-te dos homens, sem que te obrigue a procurá-los a necessidade de dinheiro, ou a necessidade gregária, ou o amor, ou a glória, ou a curiosidade, que no silêncio e na solidão não podem ter alimento. Se te é impossível viver só, nasceste escravo. Podes ter todas as grandezas do espírito, todas da alma: és um escravo nobre, ou um servo inteligente: não és livre. (...) Ai de ti, porém, se a opressão da vida, ela própria, te força a seres escravo. Ai de ti se, tendo nascido liberto, capaz de te bastares e de te separares, a penúria te força a conviveres. Essa, sim, é a tua tragédia, e a que trazes contigo (...).
        A morte é uma libertação porque morrer é não precisar de outrem. O pobre escravo vê-se livre à força dos seus prazeres, das suas mágoas, da sua vida desejada e contínua. Vê-se livre o rei dos seus domínios, que não queria deixar. As que espalharam amor veem-se livres dos triunfos que adoram. Os que venceram veem-se livres das vitórias para que a sua vida se fadou (...). Fecho, cansado, as portas das minhas janelas, excluo o mundo e um momento tenho a liberdade. Amanhã voltarei a ser escravo; porém agora, só, sem necessidade de ninguém, receoso apenas que alguma voz ou presença venha interromper-me, tenho a minha pequena liberdade, os meus momentos de excelsis.
        Na cadeira, aonde me recosto, esqueço a vida que me oprime. Não me dói senão ter-me doído.

Bernardo Soares
O Livro do Desassossego

24 de janeiro de 2016

Procurando por amor em lugares errados

La vie d'Adèle (Abdellatif Kechiche, 2013)

"Ele estava absolutamente seguro de sua escolha de homem 
independente que não necessita mais dessas bobagens de amor." 
(Caio F. - Mel e Girassóis)


Já previ nosso fim, antes mesmo de um início apropriado. Será nossa primeira e única briga. Estarei te implorando para que me deixe amá-lo, e mesmo que também queira, você não permitirá, nem olhará nos meus olhos novamente.

Certamente, nessa altura da vida, estaremos tão mutilados que já não conseguiremos apalpar o amor; prazer e dor não distinguem-se mais. Eu então partirei sem me despedir, aceitando meu desastre de ser quem eu sou, no dilema irremediável dos amores incompreendidos.

Anos depois, nos esbarraremos numa roda de samba, eu vou te enxergar no final de um canção e você me ouvirá em notas desconhecidas. Tão sozinhos, sozinhos.

Desculpa a sinceridade e o tanto de pessimismo - eu tentei, porém não sinto nada além disso. Roubaram minha esperança há muito tempo. E antes do não e da falta de explicação, continue: foda-me no silêncio, ama-me em segredo.

O que restar serão cinzas para preencher os buracos da nossa existência.  

Erllen Nadine


Título: The Blackest Day - Lana Del Rey.