18 de maio de 2015

Para você que nunca mereceu uma letra

Calvin Voichicoski 

por Beatriz Marques

Para você que nunca mereceu uma letra minha, hoje recebe esta carta inteira. Não deveria partir de mim a iniciativa de alguma conversa, até porque eu exclamei não querer mais ver a sua cara quiçá escutar alguma explicação em vão sua. Na verdade, eu não queria acreditar, como eu faço sempre, na realidade lixo. Costumo dizer que eu tenho a sorte de ter ótima memória para coisas boas e com o tempo, vou aniquilando as mágoas que só fazem alimentar aquela impotência dentro da gente. Minha memória foi num caminho de mão única com você. Digo isso porque não acordei um dia sequer até hoje sem lembrar o que houve. Eu não te odeio se é isso que está passando pela sua cabeça agora, nunca quis me vingar também. Nós éramos infantis, imaturos, cada um com sua vida brilhante de purpurina onde merda alguma de ruim acontece. No máximo a mãe briga porque você chegou tarde em casa, nunca - nunca - algo em você pensa em se matar para dissipar tanta dor. Veio então você, pisou no meu castelinho de areia, jogou na minha cara e anda por aí como se nada tivesse acontecido. Perdoar é algo que tormenta. Alguém que concede o perdão a aquele que implora é, no mínimo, viável. Aquele que faz o mesmo sem escutar nenhum estilhaço de coração quebrado ao pé do ouvido é burro ou divino. O que acontece é que não sei com que frieza conseguistes continuar sorrindo enquanto seguravas um punhal nas mãos atrás das costas. Saiba que eu não preciso de você. Nunca precisei em momento algum, e não seria agora depois de tudo isso que eu continuaria sofrendo pela sua falta. Sofri sim, pela mentira, pelo pingo de consciência pesada que você nunca conheceu. Agradeço muito a você por todas as noites que me fizestes chorar, por todos os pensamentos ingênuos que eu tive, pelo martírio que passei ao me enganar dizendo que você nunca faria isso comigo. Agradeço por você não ter vindo saber como eu estava, por continuar com esse sorrisinho medíocre que me fez perceber que quando a vida está bela são seus olhos que a fantasia de contos de fada, porque ela, na verdade, continua a mesma garrafa de veneno de sempre. Agradeço por ter continuado exatamente a mesma pessoa que és. Hoje eu vejo o que seria de mim caso continuasse ao seu lado. Obrigada mesmo por aquele abraço. Aquele que eu não consegui retribuir pela falta de cinismo dentro de mim, e pela merecida falta de amor. Espero sinceramente que seus dias não tenham tomado o rumo dos meus. Caso isso aconteça, aí vão algumas dicas: quando você sentir que está sendo enganado, não ache que é o seu lado negativista falando - você é realmente estúpida. Quando você chorar até não ter mais forças e querer dormir para não acordar mais, aprenda a fumar e virar doses incontáveis de tequila. Faça um blog e comece a expurgar todas as suas dores, quem sabe alguém que se sinta tão solitário quanto você vá se identificar e se sentir mais amparado no mundo. Aprenda a amar você, seja um pouco egoísta, esqueça um bocado dos outros - os poucos que merecem não precisam do seu amor 24h como os que apenas sugam seu oxigênio. Caso nada disso funcione, tente morrer e nascer de novo após mandar uma carta como esta. Se apaixone por alguém, dê adeus ao seu medo, tire os monstros do armário e cresça. Amadureça, evolua. Funcionou comigo. Quem sabe um dia sirva para alguém como você.


notas por mim: (I) já te perdoei muito na vida, hoje, não sei o que é isso; (II) sobre amar a si próprio, egoísmo e se apaixonar: você entende melhor que ninguém; (III) não merecia uma letra, e ainda assim te escrevi tanto o que eu sentia ):

16 de abril de 2015

No amor, não cabe um substituto



 Você tinha uma ideia sobre o amor e moldou seus desejos em mim porque algo te fascinou. Não era amor. Fui seu projeto de ciências, mas só eu sei. 
 "Não era amor". Como pude te amar tanto? Odeio tudo que me fez e o que ainda me faz sentir. E odeio o fato que nunca mais te terei, nem ninguém igual a você.
– Você nunca me teve por inteiro. Isso te frustra?

Ele me olha como um animal ferido, preso na sua própria armadilha. As mãos trêmulas acendem mais um cigarro. 

– Você ainda gosta de partir corações? Você ainda vive como se tivesse vinte anos?
 Eu... eu.

Ela me olha rapidamente, toma o cigarro para seus lábios carnudos e me seduz sem nenhuma intenção. 

– Por que você foi embora?
– Eu te disse anos atrás.
 Por que?
 Porque você não era o único.
– Eu ainda sei quando tá mentindo. Por quê? 

(Silêncio. E a verdade mais doída da sua vida) 

 Porque eu não era a única! Porque eu queria ser a mãe dos seus filhos e sabia que nunca ia ser. Você me despedaçou, mas nunca admitiu, tampouco percebeu. 

Dessa vez ela tinha se despido por completo: vi sua alma melancólica e dolorosamente bonita. Chorei silenciosamente, estendi uma mão e toquei a dela. 

Anos mais tarde, ele pensaria nesse momento antes de morrer, como o mais perto que chegou da personificação do amor.

 Eu, eu sinto muito, não sabia que... Eu queria vol
 A vida não reserva mais nada para... Laura e Pedro. O passado apenas assombra, enquanto o destino ri da gente. 

Laura, afinal, não era a anti-heroína na sua história. Ela o amou. Somente ele conseguiu preencher suas lacunas, que eram muitas e que permanecem incompreendidas por ele, por nós. 

Se Pedro tivesse olhado profundamente para ela, talvez ele mesmo tivesse fugido anos atrás. Ah, se Pedro conseguisse enxergar, o tanto que ela vê na escuridão... 

Erllen Nadine


"Há alguns anos, tive um belo final feliz nas mãos, mas deixei escapar.
Na noite em que nos vimos pela última vez, eu disse a ela: se cuide. 
Talvez um dia você escape do seu passado. Se conseguir, me procure." 
(2046, Os Segredos do Amor* - K.W. Wong) 

*título

22 de março de 2015

my blue supreme

parte IV do fim 

Foi numa manhã de domingo que sonhei com você, e chorei. Nessa mesma manhã, eu encontrei uma foto sua quando criança dentro de um livro que te emprestei e suas cartas de amor no fundo de uma gaveta. Em uma delas, dizia mais ou menos assim "não importa o quanto a gente mude, nunca vou desistir de você". Não tive forças para ver além disso, e obviamente, o que estava escrito não aconteceu. 

Eu acreditei por muito tempo que você tinha mudado tanto a ponto de eu não te reconhecer, mas a dura verdade é que você sempre foi exatamente isso, e eu nunca soube quem você era realmente. No entanto, deixei que você soubesse mais de mim do que devia, te mostrei minhas feridas e você as abriu mais ainda. 

Te dei todo amor que (não) pude e quando mais precisei, não houve reciprocidade. E tão rápido quanto a luz, você me esqueceu, me substituiu, seguiu em frente. Meses após o fim e eu ainda estava no mesmo lugar, recolhendo meus pedaços. Te amando menos a cada dia, te odiando mais a cada hora.

Senti muito, muito medo, que seu falso amor me marcasse para sempre, que eu não consiga voltar a ser a mesma de outrora e essa barreira ao meu redor se torne mais espessa e impenetrável. Eu recuo e afasto qualquer um. Só, se aproxima solidão.

Eu amava nossa história, nossos encontros, a delicadeza dos sentimentos, nossos clichês, as bobagens que nos fazia rir, amava tudo que existia entre o espaço apertado do "você e eu", o nós. Mas o nós deixou de ser pronome para se tornar um emaranhado de lembranças que sofrem a todo instante. 

Eu me doei, você me doeu. 

Nadine

p.s. não sei se sou mais idiota ou mais sentimental, ou intensamente os dois, que escreve quando tá por um fio. Escrevi para a dor cessar. Por que não cessou?


magra de ruim

"Março, um maço gasto e eu não me acho." (Transmissor)