maio 29, 2010

Talvez


Talvez se nos encontrássemos amanhã ou depois, não importa.
Talvez estivesse tão diferente do tempo em que eu sabia quem era você, você sabia quem eu era. Talvez você estivesse com alguém ou não; talvez eu estivesse com alguém ou não. Talvez você viesse falar comigo, talvez eu te ouvisse. Talvez você chorasse na minha frente, como já quis. Talvez eu chorasse na sua frente, como já fiz. Talvez você descobrisse que me amava ("amor a milésima vista"). Talvez eu admitisse que sempre te amei. Talvez você me pedisse para ficar. Talvez eu te pedisse motivos para ficar. Talvez toda esperança fosse em vão. Talvez de uma forma ou de outra o sofrimento fosse me guiar. Talvez tentássemos (de novo) de um "jeito que desse certo". Talvez adeus. Talvez para sempre. Talvez eu nunca saiba se todos os "talvez" iriam acontecer. Talvez se nos encontrássemos amanhã, ou depois, não importa.

[Erllen Nadine]

"Será que você ainda pensa em mim?"
(Os Paralamas do Sucesso)

maio 28, 2010

Alicerce

Sabe quando as pessoas vão construindo uma casa, do zero, ou reformando e tirando as marcas, de um jeito que elas não caiam; e quando terminam, pintam elas com as cores mais bonitas. As pessoas também poderia ser assim, eu poderia ser assim. Que nós conseguíssemos nos reconstruir, que nós apagássemos as marcas em formas de tatuagens, que a beleza das cores fosse felicidade refletida. Que nunca caíssemos. [...]




"Desenho toda a calçada
acaba o giz, tem tijolo de construção,
eu rabisco o sol que a chuva apagou.
Quero que saibas que me lembro,
queria até que pudesses me ver.
És parte ainda do que me faz forte.
E, pra ser honesto,
Só um pouquinho infeliz."
(Legião Urbana)

maio 22, 2010

Encontra-ar

É um conto sobre amores inacabados, a tentativa inútil de esquecer alguém, sobre quanto tempo podemos esperar para reencontrar quem nos marcou, sobre amor e dor, cores desbotadas, "sim e não", sonhos não acordados, planos não realizados.

por trás do olhar de Laura:

O meu dia tinha sido uma correria igual aos outros, eu estava cansada, mas minha reportagem sairia no jornal na manhã seguinte, e por isso eu estava bem feliz. A viagem tinha sido longa, mas valeria a pena pelo meu trabalho. Embora eu tenha ficado com medo, de quem eu poderia encontrar pelas ruas; e o medo só passou, quando de repente eu encontrei.

O sol já estava se pondo, havia uma leve chuva, com aquele frio que eu adoro. Fui a uma padaria, perto do hotel que eu estava. Tinha muitas pessoas por lá, mas quando eu o vi, parecia que só existia ele. Ele estava tão diferente do homem que eu julgava conhecer, tão triste, como se tivesse na lama, com cara de insônia, vazio por dentro e por fora. Eu achava que nunca mais iria vê-lo, pensei em fugir daquele lugar, mas eu estaria sendo igual como um dia ele foi, e eu não tinha nada a temer. Então ele me viu, surpreso, também não estava acreditando; ele sorriu, foi quando eu tive a certeza que era ele, eu conheceria aquele sorriso até no escuro. Acenei. Nos aproximamos devagar, dei um passo para trás quando percebi que ele queria um abraço. Sinceramente eu não guardava mágoas, mas também não queria demonstrar compaixão, se é que existia. Fiquei firme, não queria de jeito nenhum que transparecesse que eu fiquei balançada, mas eu também não tinha certeza disso.

Ele disse:
Oi.
Eu disse:
Oi... A quanto tempo!
Pois é, tudo bem?
Tudo na paz e com você?
Levando...
(Silêncio)
Ficamos nos olhando, sem ter o que dizer; já fazia muito tempo depois do último encontro, da despedida. Ele tentou conversar mais uma vez:
Está aqui a passeio?
Não, trabalho. É, eu tenho que ir agora.
Ah, tudo bem. Eu também.
Tchau Pedro. Cuide-se!
Tchau Laura. Cuide-se!

Saímos da padaria seguindo lados diferentes. Não olhei para trás, tinha medo que ele também olhasse. Andei depressa, até dobrar a esquina, cheguei ao hotel, subi ao meu quarto, sentei e pensei. "Pedro, Pe-dro" foi o que eu fiquei repetindo, fazia anos que não dizia esse nome. Tinha até esquecido o que eu tinha ido fazer na padaria. Continuei repetindo "Pe-dro, Pe-dro". Adormeci, para ir embora no dia seguinte.


[Erllen Nadine]


maio 21, 2010

Uma vez amei

Se eu morrer muito novo, ouçam isto:
Nunca fui senão uma criança que brincava.
Fui gentil com o sol e a água
De uma religião universal que só os homens não tem
Fui feliz porque não pedi coisa nenhuma
Nem procurei achar nada
Nem achei que houvesse mais explicação. [...]
Não desejei senão estar ao sol ou a chuva
Sentir calor e frio e vento
E não ir mais longe.
Uma vez amei, julguei que me amariam,
Mas não fui amado.
Não fui amado pela única grande razão -
Porque não tinha que ser.

Consolei-me voltando ao sol e à chuva,
E sentando-me outra vez à porta de casa.
Os campos, afinal não são tão verdes para os que
São amados. Como para os que não são.
Sentir é estar distraído.


07/11/1915

(O Eu Profundo e Os Outros Eus - Fernando Pessoa)

Ela



Ela tinha um olhar singelo
e um sorriso partido.
Ela não queria nada,
de uma forma teve tudo
e depois tudo faltou.
A garotinha dentro dela estava com frio,
mas ela não entende, porque não
sabe o que é sentir.

maio 08, 2010

"Você sabe."

E. N. e M. F.

(...)
E. N. — Ele disse "você sabe". Eu não sei o que ele está falando. O que é que eu sei?
M. F. — Esquece isso.
E. N. — Já dizia Caio Fernando Abreu "passaram-se meses, ela não o esquecia".
M. F. — Já dizia Caio Fernando Abreu "eu vou dar na sua cara".
(Gargalhadas)
E. N. — "Quero esquecer completamente, sei que nunca esquecerei".
M. F. — Você vai esquecer... Eu consegui esquecer.
E. N. — Porque não era amor. Isso é amor?
M. F. — Era amor sim. E eu aprendi com isso.
E. N. — Se aprendeu, por que entrou na mesma rua sem saída de novo?
(Silêncio)
(...)

Uma conversa entre dois melhores amigos, sobre amores mal bebidos e à base de vodka. Hoje.

maio 07, 2010

Devaneio


"Sonhei. Há muito tempo não sonhava."
(Caio F.)

Sonho em 27 de janeiro de 2010.

Eu entrava em um ônibus, que me levava para qualquer lugar. E assim que eu entrei, ele estava lá, sentado, me olhando, esperando por mim. Foi reconfortante e ao mesmo tempo assustador, eu não esperava encontrá-lo. Sentei-me ao lado dele e começamos a conversar; eu tive a impressão que estávamos andando em círculos. Tocamos naquele assunto, de tempos atrás, mas que ainda estava no meu presente. Lembro-me dele desabafando, dizendo que tinha sofrido muito por não me ter por perto. Então com lágrimas nos olhos, eu falei o que tinha feito:
— Eu fiz cortes nos meus pulsos.
E ele com um tom de tristeza perguntou:
— Mas por que você fez isso?
— Eu tinha perdido você, e eu precisava sentir alguma dor mais forte do que a dor que estava no meu coração.
Quando terminei a frase, ele começou a chorar nos meus braços, sem medo, sem mágoa, chorou e chorou; era a maneira que ele demonstrava amor e sinceridade.



"Comecei a subir pelo meu quarto, procurando por ele. Acordei."

(Caio F.)

Senta, e toma um café


"(...) Traga-me flores todas as vezes que vier me visitar Girafales, 
agora conte e reconte o número de pétalas destas, 
que sejam de números pares, por favor, não me arrisco ao mal-me-quer."

(Júlia Gadêlha)

Lixo e Purpurina

"7 de maio
Pelo menos estou vivo. Em movimento, andando por aí, perdendo ou ganhando, levando porrada, passando fome, tentanto amar. "De cada luta ou repouso me levantarei forte como um cavalo branco", onde foi que li isso? Sei: Clarice Lispector, meu Deus, foi em Perto do Coração Selvagem."

(Ovelhas Negras - Caio F. Abreu)

maio 01, 2010

Uma promessa de amor

Ele nunca tinha feito promessas, não queria que ninguém esperasse algo dele, assim como não esperava nada de ninguém. Não queria dizer que ela era diferente, apesar de que era; não dizia por que o diferente acabava sempre se tornando igual. Mas ela não era qualquer uma. Ela era única. Estava em um restaurante qualquer, de uma cidade grande qualquer. Lá fora, milhares de pessoas com seus cotidianos, com seus problemas, com suas soluções; morte, vida, egoísmo, alegria. Lá dentro, dois jovens, amor, amizade, afeto, medo. E não importava o que iria acontecer daqui para frente, se um dia iria acabar; porque de fato, para eles nunca acabaria.
Ele — Aconteça o que acontecer, sempre vou te amar. Prometo.
Ela — Aconteça o que acontecer, sempre vou te amar. Prometo.

Erllen Nadine

Sol



"Se tentarmos lançar olhar agudo ao sol (...),
perderemos por excesso de luz, a luz que temos."

(Ato V, Cena II;
Trabalhos de amor perdidos - W. Shakespeare)

Se perguntarem por mim

M. F. e E. N.

"Se perguntarem por mim, diga que fui procurar-me em algum lugar sereno, onde a lua alumia tudo e o sol nos faz ver estrelas. Diga que estou em uma corrida, uma busca constante pelo sentido certo da vida e que, por mais que deveras tenha tanto procurado, nunca hei de parar-me em um lugar, cansado. Não encontrei uma morada plena, pousada certa. Amores são inconstantes... paixões vem e vão e passam por mim, como o vento, seguem adiante... E eu nunca estanco. Sou um poeta."

(Marcos Freire)
O pior melhor amigo que já tive. <3