29 dezembro, 2011

Das preces

Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias,
a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial.
Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão.
Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos.
Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez,
com outro número e outra vontade de acreditar
que daqui pra diante vai ser diferente.

Carlos Drummond de Andrade

21 dezembro, 2011

Colora minha vida com o caos dos problemas

Carolina Rodriguez

"Havia momentos em que era melhor afastarmo-nos da máquina de escrever (...). Eu não era muito bom a escrever à máquina; e a ortografia não era o meu forte e não sabia gramática. Mas sabia quando não devia escrever." (Mulheres - Charles Bukowski)

Para justificar o sumiço:

Andei perdida dentro de várias saudades,
tentando juntar os retalhos de mim mesma.
Tentei explicar o caos que se formou por dentro,
mas as palavras fugiram por mais tempo,
deixando o papel e um tanto da vida em branco.

Voltei, mas não sei se vou ficar.

Nadine

Outro texto que fizeram pra mim. ♥

"Mas, acredite, as palavras estavam a caminho e, quando chegassem, Liesel as seguraria nas mãos feito nuvem, e as torceria feito chuva." (A Menina que Roubava Livros - Markus Zusak)

Título: The Boy With The Arab Strap - Belle and Sebastian.

25 novembro, 2011

Primeiro andar

Infância perdida dá saudade. 2004 - 7 anos sem ela.

"Nos meus sonhos eu fujo, faço as malas e sumo. Vou andando devagar pra você me alcançar, viro numa esquina e paro no mesmo lugar, em que eu te conheci. Mas você não estava lá dessa vez, para me dizer pra onde devo ir." (Thiago Pethit)

Meus olhos avermelhados revelam mais do que deviam. O final de novembro me dói, mais do que qualquer outra data. Porque sem você ao lado, o caminho de voltar para casa é mais longo, e no dia seguinte as flores não desabrocham e os pássaros não cantam, não dentro de mim. À noite, peço sempre o mesmo sonho.

Sonhei com você. Não sei que lugar bonito era aquele, só sei que não dissemos nada, embora sua voz ecoasse na minha mente. Apenas nos abraçamos. Foi tão intenso, sentir nossos corações batendo juntos mais uma vez. Até que ponto um sonho pode ser tão real?

Ao acordar, só havia um sorriso manchado e um punhado de saudade consolidada entre os meus braços. E quando me lembro do sonho, posso senti-lo. Me diz, eu que fui ao seu encontro ou você que veio ao meu?

Preciso contar para a sua mãe do sonho,
do abraço, e dizer que você não mudou em nada.
Amo você, Anatália.

- E. N.

"Eu escrevo e te conto o que eu vi, e me mostro de lá pra você.
Guarde um sonho bom pra mim." (Los Hermanos)

10 novembro, 2011

Coração vagabundo

 Deixa eu apagar o fogo do teu cigarro, do teu corpo.

As paredes tinham o tom da camisa desabotoada dele, a cerveja tinha nome de mulher, para lembrá-lo de todas as moças que já se arranharam em sua barba, se debruçaram em seu peito. Uma das mãos segurava o cigarro, a outra encontrava as coxas dela, enquanto sua voz safada a fazia perguntas. Ela não se atreveu a mergulhar nos olhos dele por mais de 5 segundos, tinha medo de desvendar mistérios.

Sem perceber, foi sendo arrastada para dentro da vida daquele homem de 30 anos. O manchou de batom vermelho, deixou que o desejo ardesse nas entranhas, para enfeitar o corpo com delírio. Queria que a noite não amanhecesse só para não ter que anunciar uma despedida.

Mas era preciso ir, e não havia lençol, perna ou braço que a segurasse. Piscou o olho enquanto prendia o laço do vestido. Com o cigarro aceso entre os lábios, sorriu pela metade. Antes de sair e dobrar a esquina para não voltar, disse:

"Desgraçado". Foi sua mais íntima declaração de amor.

Erllen Nadine

26 outubro, 2011

"... enquanto doía ela olhava os ponteiros."

Amanda Mabel

"E sempre no pingo de tempo que vinha nada acontecia se ela continuava a esperar o que ia acontecer, compreende?" (Perto do Coração Selvagem - Clarice)

Quando cheguei em casa, ele já tinha partido. E se me encontrasse, será que mudaria de ideia? "Não, claro que não" eu disse em voz alta. Não havia bilhete, e nem alguma pista para onde iria ou se voltaria. Saiu tão apressado, que se esqueceu de levar algumas coisas, - esqueceu de me levar. O cheiro da partida se misturava ao dele, logo na entrada. Tinha deixado uma camisa branca, estendida no varal. A mesma camisa que eu vestia algumas vezes antes de dormir, a que nos cobria quando não havia mais lençóis ou outra roupa por perto, a que eu pregava os botões, quando estes insistiam em cair. Esqueceu um livro, o nosso favorito: Clarice Lispector em Perto do Coração Selvagem. Estava entre as minhas coisas, e ele não ousava mexer na minha bagunça. Deixou uma gravata azul, no vazio de uma gaveta. E só. O resto era meu, o que era nosso eu não sabia onde foi parar. Como lembranças que entranham eu precisava me livrar das coisas dele. Dei a camisa para um desconhecido na rua, certamente ele sentia mais frio que eu. Arranquei a primeira página do livro (perdoe-me pela traição) com a dedicatória: "Eu faço mais do que te compreender, eu te amo", com nossos nomes e sobrenomes misturados; o deixei em uma biblioteca, "cuida bem dele, por favor". Como se eu tivesse esquecido, a gravata ficou em cima de uma mesa de bar. Ao sair, ouvi uma voz dizendo: "Moça...". E não era ele.

Restou o amor.
E o que fazer com ele?

16 outubro, 2011

Uma história de amor

1999

"O que me lembro do primeiro show era isso: Um lugar muito
pequeno, apertado, e só conhecidos." (Bruno Medina)

Naquele tempo, eu tinha 8 ou 9 anos, lembro bem da música que tocava em todo lugar, mas eu nem sabia quem eram aqueles barbudos que alguns anos mais tarde iriam ganhar meu coração. Na pré adolescência eu procurei refúgio, em guitarras barulhentas e letras que explicassem que eu não estava sozinha, para suportar o peso de crescer sem ela. Nasci para a poesia deles, junto com um cartão que vive dentro de um livro de Shakespeare, com uma canção de um tal Marcelo Camelo.

O primeiro disco me faz pular em cima da cama, já cantei Quem Sabe aos gritos para alguém que agora é desconhecido. O Bloco veio diferente, e este, não me deixa ser só; com retratos, sentimentos e carnavais que nos acordes nunca terão fim. Aí, Ventura, Ven-tu-ra é meu orgulho! Minha obra de arte favorita, meu verdadeiro Último Romance. Foi com este, que minhas cores voltaram ao lugar. Tanto o que dizer que falta palavras. Do início ao fim, sem pausa, só repetições, "um vento favorável". 4, todo azul, escutar Dois Barcos é navegar em lágrimas, é afundar-se para dentro de si mesmo. Tinha um tom de despedida? Eu não estava lá, mas eu vi.

Nada a comentar sobre o hiato - essa dor de pedaços. Os dois shows que eu fui do Marcelo foram incríveis. Abraços, fotos, autógrafos = inesquecíveis. Mas nada se compara a emoção de apreciá-los juntos 1 ano atrás. Fez-se (um) Mar de gente, um sufuco dentro de um sonho. Os 4, porque eu precisava disso aqui.

- Pra que minha vida siga adiante, Erllen Nadine

2006

11 outubro, 2011

Escrito em lenço de bar



A luz da lua invadiu a minha janela, para imitar a forma da tua sombra. Você desperta sorrisos, com poemas escritas em lenço de bar. Perco as chaves, escondo a mala, para você ficar. Te conto dos pecados e dos segredos, divido a xícara e o colchão; enquanto você protege a flor que está em seu bolso para depois me dar. Sussurro no seu ouvido em notas musicais: é uma loucura de sentimentos te amar. Agora vem, vem vestir meu corpo com o teu.

[todo dia o amor entrar pela porta do nosso coração]


Erllen Nadine

03 outubro, 2011

Segundo vazio

Faz de conta que nada foi dito. Podemos pular esse dia, não podemos?


Ele tinha os olhos fundos e tristes, estavam vazios a quase um século (podia acreditar facilmente nisso). "— Bola pra frente piá! Erga a cabeça!" ou "— Quero o melhor pra ti, então fique bem... pare de sofrer!" Ouvia constantemente dos amigos. O segundo vazio chegou mais intenso e doloroso (doía a alma), foi quando o guri sentiu saudade do cheiro, do sorriso, do olhar, da voz. Foi nessa época que ele sentiu saudade do toque, do abraço... sentiu saudade de se ancorar nela.

A saudade e o vento que tocavam o corpo dele,
caminhavam juntos em direção ao passado.

— Invadiu meus sonhos, sacudiu minha alma, acabou com a minha calma (...) Ele dizia para si mesmo vagando pela lua.

Eu o ouvia perguntar de onde tinha surgido tanto amor.
Eu, por não poder responder, sofria junto com ele e as interrogações.

As lembranças dele eram acompanhadas das piores facadas recebidas por quem um dia lhe atribuiu um sorriso - desses largos que derretem icebergs inteiros

Eu queria ter te avisado antes, que sorrisos tem prazos
de validade, se desmancham, e o que fica é o silêncio de quem te fez sorrir.

Tudo o que ele sempre quis foi o melhor para os dois. Ela sempre soube dos desejos sinceros do guri. Se entorpeceu de sonhos incinerados, desamores e vodka. Repetiu na quinta, sexta e no sábado. Houve momentos amargos provocados por ressacas morais. Ele chorou por ter visto escorrer por seus dedos, chorou por deixar recados na caixa postal e não receber retornos, chorou por não receber qualquer e-mail. Chorou por imaginar outro em seu lugar. Não sabia o que pedir, então pediu a Deus para dormir uma semana inteira, talvez Agosto inteiro.

Te ajudo com agosto e o desgosto. Fico em você, se você quiser.

Vivia o céu e o inferno. Diariamente tocava as lembranças: sentia o embalo do carro, a pegada nos quadris, a saliva... quase podia olhar nos olhos claros dela, quase podia tocar seus cabelos e acariciar o seu rosto, sentia o gosto dos lábios e de quartas intenções. Com a nostalgia: sentia o gosto do amor inventado que serve somente para distração, quase ouvia a guria falar durante a madrugada, tamanha saudade. Degustava diariamente pedaços de fins, acompanhados de variedades de vazios, em todos os tons de cinzas e pretos. (...)


Nadine e Fabricio

19 setembro, 2011

Primeiro vazio


O piano não trazia mais suas belas melodias, os sonhos do guri estavam picados como papéis velhos e sem importância, os olhos estavam úmidos, turvos e distantes, de tantas ilusões e decepções. Tudo se tornou cinza e gelado.

Entrei pela porta da frente, sem fazer barulho, para observá-lo. Ele não me viu, mas podia sentir-me. Aquele frio me desagradava, aquela dor me corrompia. Olhei seus gestos, seu choro, sua voz no meio da noite. Desculpa por não poder fazer nada agora. O silêncio já havia roubado seu sono.

Os pensamentos dele agora eram nublados, opacos, sem brilho e sem vida. Ele não queria sentir novos ventos ou sons de outros lugares, queria a cabeça sobre o peito, queria a pele, o gosto, o abraço e as mãos. Tinha vontade de petrificar Julho e sempre olhá-lo da mesma forma. Olharia a cada inverno, amaria a cada primavera, incansavelmente. Doía olhar os retratos e descasos da garota, sentiu medo do que seria de agora em diante. Se atreveu a inventar e agora não conseguia esquecer e muito menos fugir do tal do amor.

Eu o fiz acreditar que fazia parte da vida dele, e por isso, era impossível esquecer; todos os meus acordes já estavam em sua mente.
O guri lembrou do dia em que jantaram juntos. Tomates e grão de bico, penne e bife. Lembrou do violino e quase ouviu "Nearer My God To Thee" tocada na sala (por ela) e sentiu vontade de chorar. O primeiro vazio chegou acompanhado de Agosto. Guardaria as mágoas entre os livros e as besteiras, mas sozinho não era possível, ele precisava de ajuda para isso. Pediu uma mão e depois a outra: — Por favor, não vá.

Enquanto eu ouvia o pedido, de socorro talvez, deitei-me na sala, para fazer
companhia as fotos, e pedaços de coração espalhados pelo chão.

Ele então continuou a pedir... pediu perdão, pediu um recomeço:
— Estou aqui, me perdoa. Podemos colocar nosso corações para secar lá fora, no sol.
Pediu um sorriso e mais um carinho na nuca:
— Não faz assim, sinto sua falta.
Mas a porta se trancou e ele ficou para fora:
— Não quero mais. Pare de me ligar, não ache que estou ao seu dispor, me deixe. Não me esqueceu ainda? Já te esqueci.

Aquelas palavras também me deixaram atormentado. Se ela
estivesse de coração aberto, eu teria me afundado no teu peito.

O guri pediu a Deus que o dia voltasse ao início novamente, assim ele arrumaria seu quarto, beijaria sua mãe novamente, assistiria um filme francês, tomaria um bom vinho, mas não cometeria o mesmo erro.

O tempo é traiçoeiro para voltar atrás e deixar que alguns erros sejam apagados. Eu vou e volto. O tempo não. Prazer em conhecê-los: Amor.

Nadine e Fabricio

II- Introdução
I - Prólogo

18 setembro, 2011

Jaz [Introdução]


Eu apenas disse adeus com palavras, morri uma centena de vezes depois que você se foi e continuo de luto. Me enganei como sabia que me enganaria... Eu tentava transformar um sonho cremado prematuramente em algo com o nosso antigo brilho. Impossível.

(...) não olhei, deixei partir, rolou pelo meu rosto todos os resquícios frios e salgados de um amor que chegou ao fim. Aqui, no fundo do meu peito, jaz os nossos momentos.

15 setembro, 2011

Despedida [Prólogo]


Eu odeio o peso que a despedida causa em mim,
beberia Stella e Mojito até o céu girar e mudar de cor.

O primeiro vazio chegou acompanhado de agosto. Guardaria as mágoas entre os livros e as besteiras, mas sozinho não era possível, eu precisava de ajuda para isso. Continuei pedindo... pediu uma mão e depois a outra (...)
O segundo vazio chegou mais forte, foi quando descobri o verdadeiro significado das palavras: ausência, saudade e término (...)
O terceiro vazio foi o pior. Foi o vazio do adeus. Deu-me raios de sol, me fez feliz e partiu (...)

("Eu não quero sair da sua vida", era a única frase que vinha na cabeça dele)

Eder Fabricio e Erllen Nadine

12 setembro, 2011

Irremediável

1987
Casa 7. A Lua se opõe ao Sol. Virgem.

Ele sabia que se fechasse a gaveta, tiraria a liberdade das cartas e do amor que ele não queria sentir, e talvez por isso, sentia demais.

Colocou no papel todos os personagens que moravam por dentro. Ah, e como não queria acordar das histórias sobre loucos amores, escritas em lençóis, ao som de Maria Bethânia. Renunciando as despedidas nas esquinas ou mesas de bar. Fugas e suicídios ficavam para amanhã. Só o amanhã é devaneio. Só o agora existe. Hoje é dia de ouvir algum rock barulhento e dançar com suas calças vermelhas.

Transformou o amargo do café, no que havia de mais doce, pra mergulhar seu sorriso, só pra derreter corações gelados. E mais um tanto de sofrimento, em lindas obras literárias.

Escreveu para ser eterno. Nasceu para entorpecer a alma.

Erllen Nadine

"Até hoje não consegui conquistar essa disciplina, essa macrobiótica dos sentimentos, 
essa frugalidade das emoções. Fico tomado da paixão."
(Caio F. para Sérgio K., em Cartas)

04 setembro, 2011

Music is my hot hot sex

Nadine

Eu tinha quase certeza que ela sambava escondida ouvindo Chico Buaque. E só tinha paz quando ouvia Radiohead, no banho. Pegava os óculos do John emprestado e o rebolado do Elvis. Que Depeche Mode, Smashing Pumpkins e Placebo a acompanhavam quando ela viajava até Saturno. Tomava café com David Bowie, convidava Chuck Berry para o almoço. Sentia a vida transbordar, o coração se dilatar, toda vez que seus 4 barbudos tocavam na sala de estar. E Nirvana era sim a melhor banda de todos os tempos e sua opinião não ia mudar. Nas segundas feiras, tinha um caso com Julian Casablancas, e nas quartas com Morrissey. Escrevia as letras do Ramones no caderno de Estatístisca I, II, III, foda-se. Só se casaria com Brody Dalle ou Courtney Love. Não, Courtney Love não. Quem sabe ser morta por Sid Vicious. Transava ouvindo Interpol. E quando soava She Wants Revenge, o mandava embora. Pra ir dormir com Marcelo Camelo, e acordar sambando, com o Chico.

Só sei disso, porque toda noite ela me expulsa da cama dela. Então volto pra casa, com o cheiro de Rock'n roll e outros ritmos que ela tem em seu suor.