fevereiro 21, 2011

O dia que Júpiter encontrou Saturno


(...) E de repente o rock barulhento parou e a voz de John Lennon cantou every day, every way is getting better and better. Na cabeça dela soaram cinco tiros. Os olhos subitamente endurecidos da moça voltaram-se para dentro, esbarrando nos olhos subitamente endurecidos dos moço. As memórias que cada um guardava, e eram tantas, transpareceram tão nitidamente nos olhos que ela imediatamente entendeu quando ele a tocou no ombro.

Você gosta de estrelas?
Gosto. Você também?
Também. Você está olhando a lua?
Quase cheia. Em Virgem.
Amanhã faz conjunção com Júpiter.
Com Saturno também.
Isso é bom?
Eu não sei. Deve ser.
É sim. Bom encontrar você.
Também acho.

(Silêncio)

Você gosta de Júpiter?
Gosto. Na verdade "desejaria viver em Júpiter
onde as almas são puras e a transa é outra".
(...)

Você tem um cigarro?
Estou tentando parar de fumar.
Eu também. Mas queria uma coisa nas mãos agora.
Você tem uma coisa nas mãos agora.
Eu?
Eu.
(...)

Você é de Virgem?
Sou. E você, de Capricórnio?
Sou. Eu sabia.
Eu sabia também.
Combinamos: terra.
Sim. Combinamos.

(Silêncio)

Amanhã vou embora para Paris.
Amanhã vou embora para Natal.
Eu te mando um cartão de lá.
Eu te mando um cartão de lá.
No meu cartão vai ter uma pedra suspensa sobre o mar.
No meu não vai ter pedra, só mar. E uma palmeira debruçada.
(...)

Quando a noite chegar cedo e a neve cobrir as ruas,
ficarei o dia inteiro na cama pensando em dormir com você.
Quando estiver muito quente, me dará uma
moleza de balançar devagarinho na rede pensando em dormir com você.
Vou te escrever carta e não te mandar.
Vou tentar recompor teu rosto sem conseguir.
Vou ver Júpiter e me lembrar de você.
Vou ver Saturno e me lembrar de você.
Daqui a vinte anos voltarão a se encontrar.
O tempo não existe.
— O tempo existe, sim, e devora.
Vou procurar teu cheiro no corpo de outra mulher.
Sem encontrar, porque terei esquecido. Alfazema?
Alecrim. Quando eu olhar a noite enorme do Equador,
pensarei se tudo isso foi um encontro ou uma despedida.
E que uma palavra ou um gesto, seu ou meu,
seria suficiente para modificar nossos roteiros.

(Silêncio)

Mas não seria natural.
Natural é as pessoas se encontrarem e se perderem.
Natural é encontrar. Natural é perder.
Linhas paralelas se encontram no infinito.
O infinito não acaba. O infinito é nunca.
Ou sempre.
(...)

Me beija.
Te beijo.

Foi a última pessoa que viu ao sair. (...) De repente um carro freou atrás dele, o rádio gritando "se Deus quiser, um dia acabo voando". Na cabeça dele soaram cinco tiros. De onde estava, não conseguiria ver os olhos da moça. De onde estava, a moça não conseguiria ver os olhos dele. Mas as memórias de cada um eram tantas que ela imediatamente entendeu e aceitou, desaparecendo da janela no exato instante em que ele atravessou a avenida sem olhar para trás.

(Morangos Mofados - Caio F. Abreu)

5 comentários:

  1. Nadine, querida... manda email pra mim que eu te mando o codigo, pq não pode colar o codigo aqui não, e foi um amigo meu que fez... pelo email te explico direito:
    bells-swan@hotmail.com

    bjos

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  2. fico feliz por ter voltado a postar no blog..

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  3. Esse é um dos mais lindos do Caio. Adorei, Nadine. :)

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  4. Que bom que vc postou! Adoro esse lugar e já falei um monte praquela sem criatividade que te plageia!

    Bjs meus!

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  5. AAAAAAAH O PERFEITO DO CAIO F. s2
    q bom que tu postastes *-*

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"Um sorriso que derreta satélites e corações gelados."