12 junho, 2011

Pra destilar terceiras intenções

"Mas você me chama pro mundo,
e me faz sair do fundo de onde eu tô de novo."
(Marcelo Camelo)


(Ele) Fazia mais de um mês que eu cantava no bar da rua Chile. Los, Buarque, Camelo, Cazuza, Legião e algumas músicas minhas. Nesse tempo, comecei a observá-la. Quando ela passava, com seu jeans surrado, salto e aquele perfume, tirava minha concentração. Chegava e saía só, bebia algumas doses, vodka? ficava na última mesa do lado esquerdo; acendia um, dois cigarros. Eu me sentia incomodado quando alguém tentava aproximar-se dela. Passei a contar os dias, sempre esperando o sábado.

(Ela) No início, eu ia por causa das músicas, da bebida, do esquecimento; depois, era por causa dele. Há muito tempo eu tinha jogado o coração na lixeira, então era estranho, sentir-se assim: como se eu só soubesse quem eu era, quando aquele desconhecido estava por perto. Eu queria ir até onde ele estava, nem que fosse pelo caminho mais longo, porque assim, haveria tempo se eu pensasse em desistir. Não pensei em nada quando fui até ele:

Oi?
Ooii.
Ele disse, com a voz trêmula.
Posso te pedir uma música?
Po-de. Cla-claro que pode.
Ele disse, sentindo-se um bobo.
Eu sorri, e pedi:
Medieval II.
Depois agradeci.

"(...) Mora em mim, que eu deixo as portas sempre abertas, onde ninguém vai te atirar as mãos vazias nem pedras. (...) Mas a vida sempre brinca comigo, de porre em porre, vai me desmentindo." (Cazuza)

A partir desse dia, trocamos nomes, endereços, palavras com olhares e olhares sem palavras. "Eu tenho que ir embora agora. Você vem comigo?" Ela perguntou. Eu respondi que "sim". Eu diria milhões de vezes "sins". E quando eu comentei sobre a chuva, ela disse "a gente enxuga a chuva com nossa roupa" e sorriu; foi então que eu a amei pela milésima vez.

Eu vi meu reflexo nas lentes dos óculos dele, descobrindo verdades; enquanto suas mãos queimavam-se no meu corpo em brasa. "Pra destilar terceiras intenções". Pra desbotar lençóis, feitos com poemas de amor.

Erllen Nadine


*Título: Retirado da música Codinome Beija Flor (Cazuza)


04 junho, 2011

Era Beatriz, não era Laura

Sessão VI – Laura e Pedro
Um, dois, três... anos.

No começo, o desespero, a espera. Depois, a cama e o cinzeiro preenchidos; coração e copos vazios. Pedro procurou Laura em outros corpos, outros fios de cabelos, olhares, coxas rígidas, sorrisos paralisantes, piadas irritantes, histórias absurdas. Jamais a encontrou.

Do outro lado, o queixo erguido, salto 7, assim Laura aguentava as surras da vida. Apareceram outros caras, outros gostos; nenhum teve importância alguma. Dúvidas e perguntas prevaleceram. A resposta era sempre a mesma: “Eu não nasci pra amar”.

Ele sabia, que uma hora tinha que seguir em frente. Foi o que fez, ou pelo menos estava tentando fazer. Conheceu uma garota, que o fez sorrir. Qualquer um diria que ela era perfeita. Ou quase. O nome dela? Beatriz. E por isso era quase: Era Beatriz, não era Laura.

Erllen Nadine

"Ao lado dela, o brilho de Beatriz desaparecia, ofuscado por uma dor que ela ou ele só seriam capazes de compreender mais tarde, se houvesse tempo. E não havia." (Caio F.)