setembro 19, 2011

Primeiro vazio


O piano não trazia mais suas belas melodias, os sonhos do guri estavam picados como papéis velhos e sem importância, os olhos estavam úmidos, turvos e distantes, de tantas ilusões e decepções. Tudo se tornou cinza e gelado.

Entrei pela porta da frente, sem fazer barulho, para observá-lo. Ele não me viu, mas podia sentir-me. Aquele frio me desagradava, aquela dor me corrompia. Olhei seus gestos, seu choro, sua voz no meio da noite. Desculpa por não poder fazer nada agora. O silêncio já havia roubado seu sono.

Os pensamentos dele agora eram nublados, opacos, sem brilho e sem vida. Ele não queria sentir novos ventos ou sons de outros lugares, queria a cabeça sobre o peito, queria a pele, o gosto, o abraço e as mãos. Tinha vontade de petrificar Julho e sempre olhá-lo da mesma forma. Olharia a cada inverno, amaria a cada primavera, incansavelmente. Doía olhar os retratos e descasos da garota, sentiu medo do que seria de agora em diante. Se atreveu a inventar e agora não conseguia esquecer e muito menos fugir do tal do amor.

Eu o fiz acreditar que fazia parte da vida dele, e por isso, era impossível esquecer; todos os meus acordes já estavam em sua mente.

O guri lembrou do dia em que jantaram juntos. Tomates e grão de bico, penne e bife. Lembrou do violino e quase ouviu "Nearer My God To Thee" tocada na sala (por ela) e sentiu vontade de chorar. O primeiro vazio chegou acompanhado de Agosto. Guardaria as mágoas entre os livros e as besteiras, mas sozinho não era possível, ele precisava de ajuda para isso. Pediu uma mão e depois a outra: — Por favor, não vá.

Enquanto eu ouvia o pedido, de socorro talvez, deitei-me na sala, para fazer
companhia as fotos, e pedaços de coração espalhados pelo chão.

Ele então continuou a pedir... pediu perdão, pediu um recomeço:
— Estou aqui, me perdoa. Podemos colocar nosso corações para secar lá fora, no sol.
Pediu um sorriso e mais um carinho na nuca:
— Não faz assim, sinto sua falta.
Mas a porta se trancou e ele ficou para fora:
— Não quero mais. Pare de me ligar, não ache que estou ao seu dispor, me deixe. Não me esqueceu ainda? Já te esqueci.

Aquelas palavras também me deixaram atormentado. Se ela
estivesse de coração aberto, eu teria me afundado no teu peito.

O guri pediu a Deus que o dia voltasse ao início novamente, assim ele arrumaria seu quarto, beijaria sua mãe novamente, assistiria um filme francês, tomaria um bom vinho, mas não cometeria o mesmo erro.

O tempo é traiçoeiro para voltar atrás e deixar que alguns erros sejam apagados. Eu vou e volto. O tempo não. Prazer em conhecê-los: Amor.

Nadine e Fabricio

II- Introdução
I - Prólogo

setembro 18, 2011

Jaz [Introdução]


Eu apenas disse adeus com palavras, morri uma centena de vezes depois que você se foi e continuo de luto. Me enganei como sabia que me enganaria... Eu tentava transformar um sonho cremado prematuramente em algo com o nosso antigo brilho. Impossível.

(...) não olhei, deixei partir, rolou pelo meu rosto todos os resquícios frios e salgados de um amor que chegou ao fim. Aqui, no fundo do meu peito, jaz os nossos momentos.

setembro 15, 2011

Despedida [Prólogo]


Eu odeio o peso que a despedida causa em mim,
beberia Stella e Mojito até o céu girar e mudar de cor.

O primeiro vazio chegou acompanhado de agosto. Guardaria as mágoas entre os livros e as besteiras, mas sozinho não era possível, eu precisava de ajuda para isso. Continuei pedindo... pediu uma mão e depois a outra (...)
O segundo vazio chegou mais forte, foi quando descobri o verdadeiro significado das palavras: ausência, saudade e término (...)
O terceiro vazio foi o pior. Foi o vazio do adeus. Deu-me raios de sol, me fez feliz e partiu (...)

("Eu não quero sair da sua vida", era a única frase que vinha na cabeça dele)

Eder Fabricio e Erllen Nadine

setembro 12, 2011

Irremediável

1987
Casa 7. A Lua se opõe ao Sol. Virgem.

Ele sabia que se fechasse a gaveta, tiraria a liberdade das cartas e do amor que ele não queria sentir, e talvez por isso, sentia demais.

Colocou no papel todos os personagens que moravam por dentro. Ah, e como não queria acordar das histórias sobre loucos amores, escritas em lençóis, ao som de Maria Bethânia. Renunciando as despedidas nas esquinas ou mesas de bar. Fugas e suicídios ficavam para amanhã. Só o amanhã é devaneio. Só o agora existe. Hoje é dia de ouvir algum rock barulhento e dançar com suas calças vermelhas.

Transformou o amargo do café, no que havia de mais doce, pra mergulhar seu sorriso, só pra derreter corações gelados. E mais um tanto de sofrimento, em lindas obras literárias.

Escreveu para ser eterno. Nasceu para entorpecer a alma.

Erllen Nadine

"Até hoje não consegui conquistar essa disciplina, essa macrobiótica dos sentimentos, 
essa frugalidade das emoções. Fico tomado da paixão."
(Caio F. para Sérgio K., em Cartas)

setembro 04, 2011

Music is my hot hot sex

Nadine

Eu tinha quase certeza que ela sambava escondida ouvindo Chico Buaque. E só tinha paz quando ouvia Radiohead, no banho. Pegava os óculos do John emprestado e o rebolado do Elvis. Que Depeche Mode, Smashing Pumpkins e Placebo a acompanhavam quando ela viajava até Saturno. Tomava café com David Bowie, convidava Chuck Berry para o almoço. Sentia a vida transbordar, o coração se dilatar, toda vez que seus 4 barbudos tocavam na sala de estar. E Nirvana era sim a melhor banda de todos os tempos e sua opinião não ia mudar. Nas segundas feiras, tinha um caso com Julian Casablancas, e nas quartas com Morrissey. Escrevia as letras do Ramones no caderno de Estatístisca I, II, III, foda-se. Só se casaria com Brody Dalle ou Courtney Love. Não, Courtney Love não. Quem sabe ser morta por Sid Vicious. Transava ouvindo Interpol. E quando soava She Wants Revenge, o mandava embora. Pra ir dormir com Marcelo Camelo, e acordar sambando, com o Chico.

Só sei disso, porque toda noite ela me expulsa da cama dela. Então volto pra casa, com o cheiro de Rock'n roll e outros ritmos que ela tem em seu suor.

setembro 02, 2011

Quando Setembro vier

Ana Camelo

De tão azul, o céu parecerá pintado. E nós embarcaremos rumo à ilhas Cíclades. Houvesse cortinas no quarto, elas tremulariam com a brisa entrando pelas janelas abertas, de manhã bem cedo. Acordei sem a menor dificuldade, espiei a rua em silêncio, muito limpa, as azaléias vermelhas e brancas todas floridas. Parecia que alguém tinha recém pintado o céu, de tão azul. Respirei fundo. O ar puro da cidade levava meus pulmões por dentro. Setembro estava chegando enfim. Na sala, encontrei a mesa posta para o café (...). Tudo estava em paz, no Nordeste, no Oriente Médio, nas Américas Central, do Norte e do Sul (...).

No escritório, abri as gavetas e apanhei a pilha de originais de três anos, manchados de café, de vinho, de tinta e umas gotas escuras que pareciam sangue. Reli rapidamente. E a chave que faltava, há tanto tempo, finalmente pintou. Coloquei papel na máquina, comecei a escrever iluminado, possuído a um só tempo por Kafka, Fitzgerald, Clarice e Fante. Não, Pedro não tinha ido embora, nem Dulce partido, nem Eliana enlouquecido. As terras de Calmaritá realmente existiam: para chegar lá, bastava tomar a estrada e seguir em frente.

Escrevi horas. Sem sentir, cheio de prazer. Quando pensava em parar, o telefone tocou. Então uma voz que eu não ouvia há muito tempo (...), uma voz amorosa falou meu nome, uma voz quente repetiu que sentia uma saudade enorme, uma falta insuportável, e que queria voltar, pediu para irmos às ilhas gregas como tínhamos combinado naquela noite. Se podia voltar, insistiu, para sermos felizes juntos. Eu disse que sim, claro que sim, muitas vezes que sim, e aquela voz repetiu e repetia que me queria desta vez ainda mais, de um jeito melhor e para sempre agora. (...). Leve seu livro, disse. Não esqueça suas partituras, falei (...). Olhei em volta, a empregada tinha colocado para tocar A sagração da primavera, minha mala estava feita. Peguei as originais, gabardine, o chapéu e a mala. Então desci para a limusine que me esperava e embarquei rumo a.

Caio Fernando Abreu,
O Estado de São Paulo, 27/08/1986 - In Pequenas Epifanias

Mês do Caio, pra começarmos bem.