26/10/2011

"... enquanto doía ela olhava os ponteiros."

Amanda Mabel

"E sempre no pingo de tempo que vinha nada acontecia se ela continuava a esperar o que ia acontecer, compreende?" (Perto do Coração Selvagem - Clarice)

Quando cheguei em casa, ele já tinha partido. E se me encontrasse, será que mudaria de ideia? "Não, claro que não" eu disse em voz alta. Não havia bilhete, e nem alguma pista para onde iria ou se voltaria. Saiu tão apressado, que se esqueceu de levar algumas coisas, - esqueceu de me levar. O cheiro da partida se misturava ao dele, logo na entrada. Tinha deixado uma camisa branca, estendida no varal. A mesma camisa que eu vestia algumas vezes antes de dormir, a que nos cobria quando não havia mais lençóis ou outra roupa por perto, a que eu pregava os botões, quando estes insistiam em cair. Esqueceu um livro, o nosso favorito: Clarice Lispector em Perto do Coração Selvagem. Estava entre as minhas coisas, e ele não ousava mexer na minha bagunça. Deixou uma gravata azul, no vazio de uma gaveta. E só. O resto era meu, o que era nosso eu não sabia onde foi parar. Como lembranças que entranham eu precisava me livrar das coisas dele. Dei a camisa para um desconhecido na rua, certamente ele sentia mais frio que eu. Arranquei a primeira página do livro (perdoe-me pela traição) com a dedicatória: "Eu faço mais do que te compreender, eu te amo", com nossos nomes e sobrenomes misturados; o deixei em uma biblioteca, "cuida bem dele, por favor". Como se eu tivesse esquecido, a gravata ficou em cima de uma mesa de bar. Ao sair, ouvi uma voz dizendo: "Moça...". E não era ele.

Restou o amor.
E o que fazer com ele?

16/10/2011

Uma história de amor

1999

"O que me lembro do primeiro show era isso: Um lugar muito
pequeno, apertado, e só conhecidos." (Bruno Medina)

Naquele tempo, eu tinha 8 ou 9 anos, lembro bem da música que tocava em todo lugar, mas eu nem sabia quem eram aqueles barbudos que alguns anos mais tarde iriam ganhar meu coração. Na pré adolescência eu procurei refúgio, em guitarras barulhentas e letras que explicassem que eu não estava sozinha, para suportar o peso de crescer sem ela. Nasci para a poesia deles, junto com um cartão que vive dentro de um livro de Shakespeare, com uma canção de um tal Marcelo Camelo.

O primeiro disco me faz pular em cima da cama, já cantei Quem Sabe aos gritos para alguém que agora é desconhecido. O Bloco veio diferente, e este, não me deixa ser só; com retratos, sentimentos e carnavais que nos acordes nunca terão fim. Aí, Ventura, Ven-tu-ra é meu orgulho! Minha obra de arte favorita, meu verdadeiro Último Romance. Foi com este, que minhas cores voltaram ao lugar. Tanto o que dizer que falta palavras. Do início ao fim, sem pausa, só repetições, "um vento favorável". 4, todo azul, escutar Dois Barcos é navegar em lágrimas, é afundar-se para dentro de si mesmo. Tinha um tom de despedida? Eu não estava lá, mas eu vi.

Nada a comentar sobre o hiato - essa dor de pedaços. Os dois shows que eu fui do Marcelo foram incríveis. Abraços, fotos, autógrafos = inesquecíveis. Mas nada se compara a emoção de apreciá-los juntos 1 ano atrás. Fez-se (um) Mar de gente, um sufuco dentro de um sonho. Os 4, porque eu precisava disso aqui.

- Pra que minha vida siga adiante, Erllen Nadine

2006

11/10/2011

Escrito em lenço de bar



A luz da lua invadiu a minha janela, para imitar a forma da tua sombra. Você desperta sorrisos, com poemas escritas em lenço de bar. Perco as chaves, escondo a mala, para você ficar. Te conto dos pecados e dos segredos, divido a xícara e o colchão; enquanto você protege a flor que está em seu bolso para depois me dar. Sussurro no seu ouvido em notas musicais: é uma loucura de sentimentos te amar. Agora vem, vem vestir meu corpo com o teu.

[todo dia o amor entrar pela porta do nosso coração]


Erllen Nadine

03/10/2011

Segundo vazio

Faz de conta que nada foi dito. Podemos pular esse dia, não podemos?


Ele tinha os olhos fundos e tristes, estavam vazios a quase um século (podia acreditar facilmente nisso). "— Bola pra frente piá! Erga a cabeça!" ou "— Quero o melhor pra ti, então fique bem... pare de sofrer!" Ouvia constantemente dos amigos. O segundo vazio chegou mais intenso e doloroso (doía a alma), foi quando o guri sentiu saudade do cheiro, do sorriso, do olhar, da voz. Foi nessa época que ele sentiu saudade do toque, do abraço... sentiu saudade de se ancorar nela.

A saudade e o vento que tocavam o corpo dele,
caminhavam juntos em direção ao passado.

— Invadiu meus sonhos, sacudiu minha alma, acabou com a minha calma (...) Ele dizia para si mesmo vagando pela lua.

Eu o ouvia perguntar de onde tinha surgido tanto amor.
Eu, por não poder responder, sofria junto com ele e as interrogações.

As lembranças dele eram acompanhadas das piores facadas recebidas por quem um dia lhe atribuiu um sorriso - desses largos que derretem icebergs inteiros

Eu queria ter te avisado antes, que sorrisos tem prazos
de validade, se desmancham, e o que fica é o silêncio de quem te fez sorrir.

Tudo o que ele sempre quis foi o melhor para os dois. Ela sempre soube dos desejos sinceros do guri. Se entorpeceu de sonhos incinerados, desamores e vodka. Repetiu na quinta, sexta e no sábado. Houve momentos amargos provocados por ressacas morais. Ele chorou por ter visto escorrer por seus dedos, chorou por deixar recados na caixa postal e não receber retornos, chorou por não receber qualquer e-mail. Chorou por imaginar outro em seu lugar. Não sabia o que pedir, então pediu a Deus para dormir uma semana inteira, talvez Agosto inteiro.

Te ajudo com agosto e o desgosto. Fico em você, se você quiser.

Vivia o céu e o inferno. Diariamente tocava as lembranças: sentia o embalo do carro, a pegada nos quadris, a saliva... quase podia olhar nos olhos claros dela, quase podia tocar seus cabelos e acariciar o seu rosto, sentia o gosto dos lábios e de quartas intenções. Com a nostalgia: sentia o gosto do amor inventado que serve somente para distração, quase ouvia a guria falar durante a madrugada, tamanha saudade. Degustava diariamente pedaços de fins, acompanhados de variedades de vazios, em todos os tons de cinzas e pretos. (...)


Nadine e Fabricio