agosto 31, 2012

Agosto, o tempo e eu

Porque era agosto, e por ser agosto os dias arrastavam-se lentamente.

Foi em alguma tarde de agosto que eu a conheci, em um daqueles dias que parece não ter fim. Usava um vestido azul, o cabelo solto esvoaçava e bagunçava teu rosto.

Anos depois, foi em alguma curva de agosto que ela dobrou, e não voltou. Usava um... Eu não sei o que ela usava, nem como estava seu cabelo, mas jamais esqueci aquele dia.

Ficamos juntos até seus sonhos tornarem-se vazios. Não havia mais vinho aos sábados e filmes clássicos durante a madrugada, não havia mais transas no banheiro ou sorriso borrado de café. O rádio parou de tocar. Pergunto-me se percebi em que estação a gente findou.

Cada gesto uma lembrança, penso então que o tempo nunca foi meu amigo. Mas ele nunca sai de perto, suponho na escuridão que ele gosta de mim o suficiente para me encarar. Agosto me dói por inteiro. Distorce o que sinto: cheiro novo em molduras antigas. Espalha o caos e o suor dela na cama fria.

Concluo que agosto, o tempo e eu jamais teremos um romance ideal. Somos tão parecidos, alguma coisa entre a solidão e os dias sem fim.

Porque era agosto, e por ser agosto havia aquele trocadilho infame. Desgosto.

Erllen Nadine

p.s.: Não é fácil nem para os leoninos.

agosto 26, 2012

Ela só queria tragar a vida

Escrito ao som de One Last Time (The Kooks). Repetidas vezes.

Era sexta feira. Sem paixão.
Ela estava sentada sozinha na mesa ao lado, eu compartilhava da mesma solidão. Ela tinha um ar de perdida, de quem não prestava atenção na música que estava tocando e de quem só queria estragar a vida. Fumava seu cigarro como se fosse o último, e era. Até que ela me pediu um trago.

Ela queria alguém para conversar e eu só queria escutar. Sua voz soava muito bem, era o barulho que eu precisava para esquecer o silêncio que me deixaram. Dividimos o mesmo cigarro e um meio sorriso. Eu passei a prestar cada vez mais atenção nela. Seu batom vermelho estava quase saindo, o esmalte também. O cabelo preso deixou amostra sua tatuagem, um símbolo. Leão? Ela não olhava diretamente para mim. Medo? Ou não queria que eu soubesse que havia chorado ou não dormia há dias. E quando finalmente ela conseguiu olhar nos meus olhos, eu...:

 Tenho a sensação que você quer dizer algo.
 Mas eu nem te conheço.
 Por isso mesmo.
Ela sorriu, agora por completo. 

Enquanto ela falava de coisas bonitas e outras tristes, eu reparava no modo que as palavras saiam da sua boca e chegavam até mim. Ela não fazia ideia do quanto estava revirando meus sentidos. Eu contei para ela sobre a mudança de planos e de cidade, de ser deixado para trás, das noites insones ouvindo qualquer coisa que curasse a alma. A gente riu, de como é banal estar no fundo do poço. Entre aquela risada e outra bebida, ela desab(af)ou:

  Eu vivi uma ou duas vezes aquilo que as pessoas chamam de amor ou "quase". Sou cheia de histórias pela metade, domingos vazios e beijos selado com despedidas. Ainda tenho marcas do último romance. E faz tanto tempo, que não me lembro do rosto dele, mas sinto. E dói. Eu vi em um filme do Woody Allen que "só o amor incompleto pode ser romântico". Você acredita nisso?
 Eu não sei. Mas cansei desses amores, se for assim, não precisa ser romântico.
Ela sorriu dessa vez com os olhos.

Ela me chamou para conhecer a cidade, contar estrelas. E sussurrou:  Quando falei com você, a música que estava tocando era linda.
Já era sábado. Partilhamos a dor para retirar o "quase" que existia em nós. Às vezes, o amor nasce antes que o sol. Eu a tinha encontrado, como quem espera a música mais linda tocar. E ela? ela só queria tragar a vida. 

Erllen Nadine

Engel and Joe 

Filme: Vicky Cristina Barcelona (2008)

agosto 10, 2012

Você é mais bonito que o Rio de Janeiro em julho


Fique o tempo que for necessário.
Escute a mesma música o quanto quiser. Chore. Ria da nossa loucura.
Enquanto escrevo declarações no espelho do banheiro.

Tome outra dose, de você e de mim.
Arranque a saudade do meu corpo, tire as roupas também.
Se vista com meu suor.

Vamos falar de clichês: da vida e dos fracassos.
De como eu odeio a claridade que entra pela sua janela para me acordar,
e de como agora eu preciso dela, porque meus dias estão escuros demais
- sem você por perto.

Traga outra sexta feira, com cerveja, cigarros de amigos
e canções que entorpecem a alma.
Vamos escolher o nome para os filhos que não iremos ter.
Quantos gatos e flores no nosso jardim;
casa ou apartamento?
Vamos fazer planos, sem esperar nada em troca,
só por querer que o amanhã exista.

Vem me ajudar a inventar explicações para o amor, nosso:
que o amor é tomar banho de chuva em Copacabana;
é chorar baixinho uma madrugada inteira
- porque no dia seguinte alguém tem que ir;
é suportar a distância nos partindo; é juntar os pedaços depois.
Amor é te empurrar da cama na melhor parte do sonho.

Amor é definitivamente pensar em você.

Erllen Nadine