dezembro 29, 2013

Não era amor, era uma travessura



Eles se conhecem há anos, mas nunca se conheceram de verdade. Embora simples e até mesmo clichê, eles não conseguem entender o que acontece entre os dois. 

Embriagam-se e se aproximam, um se joga em cima do outro, não há laços nem roupas. Quando estão sóbrios, é metade amigos, metade desconhecidos, nada mais que isso. 

Ele pergunta de quem ela gosta, quando na verdade não quer saber. Ciúme. E ela não se importa, de não pertencer à cama dele. Mentira

Não trocam cartas ou telefonemas. Gostam de poemas e não falam de seus dramas. Cada encontro é como se fosse o primeiro ou último. São desesperados, e não esperam nada em troca.

O único segredo que há são eles mesmos. Não existe culpa, arrependimento, nem amor. Existem duas almas querendo fugir de suas realidades. 

- E eu nunca resisto, quando sua boca vem em direção a minha.

Erllen Nadine

*Título: frase do livro Divã (Martha Medeiros, 2002)

dezembro 23, 2013

do inevitável


"Não choro mais... Agora só resta uma coisa seca. Dentro, fora." (Caio F.)

O que nos aproximou foi a solidão. 
Você tem tantos amigos, mas no fundo não tem ninguém. 
Você sabe, é tão solitário quanto eu. 

Eu te culpo por tudo, 
mas a culpa também é minha,
eu nunca soube amar direito.

Suas últimas palavras dilaceraram o vazio.
Mas eu sei seguir em frente, sem olhar para trás,
fiz isso a minha vida inteira.

Por falta de um sorriso, eu procuro outro abrigo [...] 

dezembro 13, 2013

Uma definição



amor é uma luz à
noite atravessando o nevoeiro

amor é uma tampinha de cerveja
pesada no caminho
do banheiro

amor é a chave perdida da sua porta
quando você está bêbado

amor é o que acontece
uma vez a cada dez anos

amor é o velho jornaleiro na
esquina que
desistiu

amor é o que você acha que a outra
pessoa destruiu 

amor é o que desapareceu junto
com a era dos navios encouraçados 

amor é o telefone tocando,
a mesma voz ou uma outra 
voz mas nunca a voz 
correta 

amor é traição
amor é o incêndio dos 
sem-teto num beco [...]

amor é a chuva sobre o telhado
de um velho hotel
em Los Angeles 

amor é o seu pai num caixão 
(aquele que te odiava) [...] 

amor é tudo que nós dissemos 
que não era [...] 

amor é um banco de bar vazio

amor é um filme de Hindenburg
se retorcendo
um momento que ainda grita 

amor é Dostoiévski na
roleta

amor é o que se arrasta pelo 
chão

amor é a sua mulher dançando
colada com um estranho 

amor é uma senhora 
roubando um pedaço de
pão 

e o amor é uma palavra usada 
muitas vezes e 
muitas vezes
cedo demais

(Amor é tudo que nós dissemos que não era - Charles Bukowski)

novembro 11, 2013

Paraíso

10/11/13 - Rio de Janeiro 

"Heaven is a place on earth with you." 

Andava delicadamente como se pisasse em nuvens, e possuía um olhar às vezes doce, às vezes selvagem. O sorriso era singular, a voz de veludo era mágica. Alma e coração, tão poéticos. O domingo solitário, por alguns momentos teve um pedaço do paraíso: Lana Del Rey, muito mais que um body electric e uma alma dolorida. 

É difícil expressar nas linhas tantos sentimentos misturados com aquela beleza inigualável. Aqueles momentos estiveram em meus sonhos bem antes de acontecerem e ainda permanecem comigo, como as canções que me acordam todos os dias. 

Há tanta intensidade, mentes quebradas, amores não vividos, outros intermináveis nas composições e batidas que mexem com minha alma, e assim sempre sinto uma nostalgia do que não existiu. Agora, (res)piro e sorrio para cada lembrança gravada em mim. 

Erllen Nadine 

"I don't wanna wake up from this tonight."

outubro 25, 2013

Ou tu (bro) ou nada


J.

Você ainda habita meus sonhos, 
mas eu me contento com o quase nada que tenho de você: 
Lembrar-se de você se aproximando. 
Uma foto antiga. 
Uma mensagem apagada, 
mas gravada na memória. 
Sentir saudade e saber que talvez não sinta o mesmo.

Erllen Nadine

outubro 15, 2013

Corações perdidos



Se existia alguma regra sobre primeiro encontro, não conhecíamos nenhuma. Éramos apenas estranhos que se esbarraram por acaso num lugar lotado, de pessoas vazias. Um sorriso, bochechas coradas, uma garrafa de whisky... Estendemos as mãos um para outro como quem pede socorro do passado trágico, do fundo do poço, do inevitável.

Dançamos como se estivéssemos nos telhados de Paris. Tropeçamos um no outro, falamos bobagens e rimos de tudo que não tinha graça. Num breve momento de intimidade, ela me disse tantas verdades. Que só os loucos morrem de amor, mais de uma vez.

Minhas mãos se firmavam em sua cintura, enquanto seu rosto cansado encostava-se a meu peito. Ela se movia delicadamente como em um clássico dos anos 40. Contamos nossos sonhos, sonhos tão grandes quanto às tempestades de verão no final da tarde.

Vez em quando, desviávamos olhares. Eu não queria que ela descobrisse meus medos. Entre um giro e outro, seu cabelo alaranjado prendia-se na minha barba mal feita. Éramos corações perdidos na solidão de um sábado. Nossas bocas então se arrastaram lentamente, uma em busca da outra: revirando sentidos.
- Me empresta um cigarro? 
- Me leva pra casa? 
- Tira meu vestido. 
- Cuida de mim.

Não dissemos nada disso. Mais cinco minutos e o sol acordaria, voltaríamos para decadência da nossa realidade. Casacos, bilhetes, números trocados, cada um num táxi para diferentes lados da cidade.

Seu batom manchou minha camisa. E meu coração.

Erllen Nadine


Não escrevo faz tempo, mesmo assim aceitei o convite do meu amigo Briccio (Universo Paralelo) para participar desse projeto tão especial. Sejam bem vindos ao nosso outro refúgio. ;*
http://eoqueelespensam.blogspot.com.br/

maio 05, 2013

Em cada palavra pulsa um coração

Sou feliz na hora errada. 
Infeliz quando todos dançam. 

Eu queria escrever um livro. Mas onde estão as palavras? esgotaram-se os significados. (...) Tenho medo de escrever. É tão perigoso. Quem tentou, sabe. Perigo de mexer no que está oculto - e o mundo não está à tona, está oculto em suas raízes submersas em profundidades do mar. Para escrever tenho que me colocar no vazio. Neste vazio é que existo intuitivamente. Mas é um vazio terrivelmente perigoso: dele arranco sangue. Sou um escritor que tem medo da cilada das palavras: as palavras que digo escondem outras - quais? talvez as diga. Escrever é uma pedra lançada no poço fundo.

(Um Sopro de Vida - Clarice Lispector)


janeiro 30, 2013

(trans)bordando saudade


Para Anatália

Você amou loucamente aquele garoto, que te encorajou a suportar os dias difíceis. Decepcionou-se, sofreu e chorou na minha frente quantas vezes foram precisas. Voltou a amar, foi tão feliz, que dividimos a felicidade com um pote de sorvete em um sábado à noite. Ficou bêbada quando passamos no vestibular, enquanto eu ria sem parar, você vomitou nos meus sapatos. Cortou o cabelo, deixou mais loiro, usou batom vermelho. Assistimos os clássicos, compramos discos e ouvimos as histórias da minha avó.

Isso nunca aconteceu.

Um dia você entrou no ônibus errado e ele foi partido ao meio por outro. Partiram seus sonhos, seu destino, o coração da sua mãe, nossas vidas.

Não chegou aos dezesseis, não fez vestibular, não amou loucamente.

A morte não pede licença. A vida não para pra gente recolher os cacos de nós mesmos. Fica tudo pelos nossos caminhos, para serem levados pelo vento aos poucos. O mundo continua a girar, o dia amanhece, mas você não. 

Um dia eu me deparo chorando ao lado de desconhecidos, escrevendo essas coisas em pensamento, tentando entender o porquê de nunca se despedir - jamais teremos um fim. Você é meu sonho bonito que me abraça quando eu mais preciso. 

Com todo meu amor, eu