29 agosto, 2014

O abismo de Laura

Escrito ao som de El Pintor (Interpol)


Eu acendi mais um cigarro, enquanto ela olhava para estrelas que começavam a desaparecer. Ela insistia em entrar no mar, queria provar que estava tão frio e solitário quanto a sua alma. Eu sei, dava pra sentir.

Era nítido o quanto ela estava perdida: Em seu sorriso mudo, seu olhar triste fitando as ondas, seus passos leves em câmera lenta, como se estivesse em um filme francês melancólico, esperando ser retirada dele para viver... Ou morrer.

Disse-me mais tarde que chorou enquanto estava numa fila de supermercado, tinha tantos motivos que nem sabia por qual. Entrou em um ônibus sem ter aonde ir. Ficou uma hora embaixo do chuveiro desligado, pensando, não se sabe em quê.

É na beira do abismo que ela se equilibra. É nas ironias do destino que ela se apega. Seu vazio está cheio de poesia. Ela queria fugir. Como fugir dela mesmo?

Eu queria ser personagem de um conto, eles sofrem, mas não sentem dor.
No entanto, Laura é tão real quanto eu.

Erllen Nadine

"O problema dos solitários, é que eles nunca estão sozinhos." 
(Boy Meets Girl, Leos Carax)