dezembro 02, 2015

resposta ao tempo



Batidas na porta da frente é o tempo
Eu bebo um pouquinho pra ter argumento
Mas fico sem jeito, calado
ele ri
Ele zomba de quanto eu chorei
porque sabe passar e eu não sei

Num dia azul de verão sinto vento
há folhas no meu coração é o tempo
recordo um amor que eu perdi
ele ri
Diz que somos iguais se eu notei
pois não sabe ficar e eu também não sei

E gira em volta de mim
sussurra que apaga os caminhos
que amores terminam no escuro
sozinhos

Respondo que ele aprisiona,
eu liberto
Que ele adormece as paixões
e eu desperto
E o tempo se vai com inveja de mim
Me vigia querendo aprender
Como eu morro de amor pra tentar reviver

No fundo é uma eterna criança
que não soube amadurecer
Eu posso, ele não vai poder
me esquecer.

Cristovão Bastos/Aldir Blanc

outubro 04, 2015

Ou tu (bro) ou nada II

Mirtle

se você fosse um lugar, seria o lugar mais bonito que já vi
mais bonito que o Rio de Janeiro em julho
o natal em Natal 
o fim de tarde no Porto da Barra
se você fosse um lugar, eu gostaria de morar em você

você deixa eu morar na sua pessoa?
eu queria muito, que tivéssemos o mesmo endereço.

Erllen Nadine

setembro 20, 2015

Alain


— Você ainda tem aquelas sensações de angústia?
— Não são sensações de angústia, doutor. É uma única angústia, perpétua. 

— Falam de sinceridade, mas se dedicam a coisas mesquinhas.
— E você?
— Eu? abandonada, arruinada, devastada... inalterável! Eu nunca mudo. Nunca tento compreender. Dormir é tudo em que acredito.

— Eu sou bruto, inepto. A sensibilidade estava em meu coração, não em minhas mãos. Eu não as amo, eu nunca pude amá-las. Não posso tocar. Não posso pegar. Tem que vir do coração.
— E o que você queria fazer?
— Eu gostaria de ter cativado as pessoas, retê-las, mantê-las próximas. Para que nada mais 
se movesse ao meu redor, mas tudo sempre deu errado.
— Realmente ama as pessoas a esse ponto?
— Queria tanto ter sido amado... que eu amo.

Trinta Anos Esta Noite (Louis Malle, 1963)

setembro 19, 2015

Daniele


— O desconforto que tem dentro de si, a sua melancolia sem fim, não consigo suportar.
— Mas você não sabe nada sobre mim.
— Sei o que me interessa saber. 

— Por que a morte é a primeira noite de tranquilidade?
— Porque finalmente se dorme sem sonhos. 

A Primeira Noite de Tranquilidade (1972), de Valerio Zurlini

junho 19, 2015

Hey Nana

(desconheço autoria)

escrito ao som de feito pra acabar

Quero fugir do meu corpo toda vez que me lembro de você.
Tudo dói. 
Sinto uma necessidade assustadora de desaguar.
A leve chuva na madrugada, o cheiro que recorda um antigo carnaval,
a tv no mudo quando os olhos embaçados nem sabem o que veem, 
a pizza de ontem no café da manhã. O choro diante de qualquer banalidade. 

A verdade é que fui perdendo muitos pedacinhos de mim ao longo dos anos.
Mas você, você tirou o maior deles.

Dizer adeus não era suficiente. 
Você precisou destilar sua sujeira, me marcar o mais fundo possível, 
com uma maldade que eu desconhecia. 

Não te amo mais, eu acho, porque te amar seria masoquismo.
E por falar em amor, em que momento você deixou de me amar?
Deixa pra lá, não quero saber, foi no inverno passado, certo?
Não importa, nem acredito que realmente amou. 

Mas acreditei por muito tempo, alguns anos e outros meses, 
que a vida reservava o melhor pra gente. Uma sonhadora, dois perdidos.
Eu só queria proteger você de você mesmo, mas eu esqueci de mim. 
Estou pagando meus pecados por ter te amado demais, 
a única dívida que sobrou é não saber como, nem querer te perdoar, 
nunca nunquinha.

Eu, mais bagunçada que meus rascunhos, imersa em arrependimentos e erros,
não sabendo lidar com o que tem por dentro.
Cansada, mente e alma fragmentadas. 

Quantas vezes um coração aguenta ser partido? A segunda vez é ainda pior. 
(Parece que não aprendi nada). 

Nadine 

maio 18, 2015

Para você que nunca mereceu uma letra

Calvin Voichicoski 

escrito por Beatriz Marques

Para você que nunca mereceu uma letra minha, hoje recebe esta carta inteira. Não deveria partir de mim a iniciativa de alguma conversa, até porque eu exclamei não querer mais ver a sua cara quiçá escutar alguma explicação em vão sua. Na verdade, eu não queria acreditar, como eu faço sempre, na realidade lixo. Costumo dizer que eu tenho a sorte de ter ótima memória para coisas boas e com o tempo, vou aniquilando as mágoas que só fazem alimentar aquela impotência dentro da gente. Minha memória foi num caminho de mão única com você. Digo isso porque não acordei um dia sequer até hoje sem lembrar o que houve. Eu não te odeio se é isso que está passando pela sua cabeça agora, nunca quis me vingar também. Nós éramos infantis, imaturos, cada um com sua vida brilhante de purpurina onde merda alguma de ruim acontece. No máximo a mãe briga porque você chegou tarde em casa, nunca - nunca - algo em você pensa em se matar para dissipar tanta dor. Veio então você, pisou no meu castelinho de areia, jogou na minha cara e anda por aí como se nada tivesse acontecido. Perdoar é algo que tormenta. Alguém que concede o perdão a aquele que implora é, no mínimo, viável. Aquele que faz o mesmo sem escutar nenhum estilhaço de coração quebrado ao pé do ouvido é burro ou divino. O que acontece é que não sei com que frieza conseguistes continuar sorrindo enquanto seguravas um punhal nas mãos atrás das costas. Saiba que eu não preciso de você. Nunca precisei em momento algum, e não seria agora depois de tudo isso que eu continuaria sofrendo pela sua falta. Sofri sim, pela mentira, pelo pingo de consciência pesada que você nunca conheceu. Agradeço muito a você por todas as noites que me fizestes chorar, por todos os pensamentos ingênuos que eu tive, pelo martírio que passei ao me enganar dizendo que você nunca faria isso comigo. Agradeço por você não ter vindo saber como eu estava, por continuar com esse sorrisinho medíocre que me fez perceber que quando a vida está bela são seus olhos que a fantasia de contos de fada, porque ela, na verdade, continua a mesma garrafa de veneno de sempre. Agradeço por ter continuado exatamente a mesma pessoa que és. Hoje eu vejo o que seria de mim caso continuasse ao seu lado. Obrigada mesmo por aquele abraço. Aquele que eu não consegui retribuir pela falta de cinismo dentro de mim, e pela merecida falta de amor. Espero sinceramente que seus dias não tenham tomado o rumo dos meus. Caso isso aconteça, aí vão algumas dicas: quando você sentir que está sendo enganado, não ache que é o seu lado negativista falando - você é realmente estúpida. Quando você chorar até não ter mais forças e querer dormir para não acordar mais, aprenda a fumar e virar doses incontáveis de tequila. Faça um blog e comece a expurgar todas as suas dores, quem sabe alguém que se sinta tão solitário quanto você vá se identificar e se sentir mais amparado no mundo. Aprenda a amar você, seja um pouco egoísta, esqueça um bocado dos outros - os poucos que merecem não precisam do seu amor 24h como os que apenas sugam seu oxigênio. Caso nada disso funcione, tente morrer e nascer de novo após mandar uma carta como esta. Se apaixone por alguém, dê adeus ao seu medo, tire os monstros do armário e cresça. Amadureça, evolua. Funcionou comigo. Quem sabe um dia sirva para alguém como você.

abril 16, 2015

No amor, não cabe um substituto



 Você tinha uma ideia sobre o amor e moldou seus desejos em mim porque algo te fascinou. Não era amor. Fui seu projeto de ciências, mas só eu sei. 
 "Não era amor". Como pude te amar tanto? Odeio tudo que me fez e o que ainda me faz sentir. E odeio o fato que nunca mais te terei, nem ninguém igual a você.
– Você nunca me teve por inteiro. Isso te frustra?

Ele me olha como um animal ferido, preso na sua própria armadilha. As mãos trêmulas acendem mais um cigarro. 

– Você ainda gosta de partir corações? Você ainda vive como se tivesse vinte anos?
 Eu... Eu.

Ela me olha rapidamente, toma o cigarro para seus lábios carnudos e me seduz sem nenhuma intenção. 

– Por que você foi embora?
– Eu te disse anos atrás.
 Por quê?
 Porque você não era o único.
– Eu ainda sei quando tá mentindo. Por quê? 

(Silêncio. E a verdade mais doída da sua vida). 

 Porque eu não era a única! Porque eu queria ser a mãe dos seus filhos e sabia que nunca ia ser. Você me despedaçou, mas nunca admitiu, tampouco percebeu. 

Dessa vez ela tinha se despido por completo: vi sua alma melancólica e dolorosamente bonita. Chorei silenciosamente, estendi uma mão e toquei a dela. 

Anos mais tarde, ele pensaria nesse momento antes de morrer, como o mais perto que chegou da personificação do amor.

 Eu, eu sinto muito, não sabia que... Eu queria vol...
 A vida não reserva mais nada para... Laura e Pedro. O passado apenas assombra, enquanto o destino ri da gente. 

Laura, afinal, não era a anti-heroína na sua história. Ela o amou. Somente ele conseguiu preencher suas lacunas, que eram muitas e que permanecem incompreendidas por ele, por nós. 

Se Pedro tivesse olhado profundamente para ela, talvez ele mesmo tivesse fugido anos atrás. Ah, se Pedro conseguisse enxergar, o tanto que ela vê na escuridão... 

Erllen Nadine


"Há alguns anos, tive um belo final feliz nas mãos, mas deixei escapar.
Na noite em que nos vimos pela última vez, eu disse a ela: se cuide. 
Talvez um dia você escape do seu passado. Se conseguir, me procure." 
(2046, Os Segredos do Amor* - K.W. Wong) 

*título

março 22, 2015

my blue supreme

parte IV do fim 

Foi numa manhã de domingo que sonhei com você, e chorei. Nessa mesma manhã, eu encontrei uma foto sua quando criança dentro de um livro que te emprestei e suas cartas de amor no fundo de uma gaveta. Em uma delas, dizia mais ou menos assim "não importa o quanto a gente mude, nunca vou desistir de você". Não tive forças para ver, além disso, e obviamente, o que estava escrito não aconteceu. 

Eu acreditei por muito tempo que você tinha mudado tanto a ponto de eu não te reconhecer, mas a dura verdade é que você sempre foi exatamente isso, e eu nunca soube quem você era realmente. No entanto, deixei que você soubesse mais de mim do que devia te mostrei minhas feridas e você as abriu mais ainda. 

Dei-te todo amor que (não) pude e quando mais precisei, não houve reciprocidade. E tão rápido quanto à luz, você me esqueceu, me substituiu, seguiu em frente. Meses após o fim e eu ainda estava no mesmo lugar, recolhendo meus pedaços. Amando-te menos a cada dia, te odiando mais a cada hora.

Senti muito, muito medo, que seu falso amor me marcasse para sempre, que eu não consiga voltar a ser a mesma de outrora e essa barreira ao meu redor se torne mais espessa e impenetrável. Eu recuo e afasto qualquer um. Só, se aproxima solidão.

Eu amava nossa história, nossos encontros, a delicadeza dos sentimentos, nossos clichês, as bobagens que nos fazia rir, amava tudo que existia entre o espaço apertado do "você e eu", o nós. Mas o nós deixou de ser pronome para se tornar um emaranhado de lembranças que sofrem a todo instante. 

Eu me doei. Você me doeu. 

Nadine

p.s. não sei se sou mais idiota ou mais sentimental, ou intensamente os dois, que escreve quando tá por um fio. Escrevi para a dor cessar. Por que não cessou?

(desconheço autoria)

fevereiro 28, 2015

Ah, se eu fosse marinheiro



I lost my dream
I lost my reason all again
I have to save my life
I need some peace of mind
I am the only one now.
(Angel Olsen)

janeiro 23, 2015

O amor nos versos da nossa adolescência

(desconheço autoria)

Ao primeiro amor...

Além de beijos na nuca, despedidas em aeroportos e rodoviárias também são meu ponto fraco. Agora entendo toda aquela náusea... Eu sempre embarquei pro lugar errado.

Amei-te dos quinze aos dezessete e um pouco mais. Um pouco sempre. Nos meus devaneios, você sempre me esperou, e um dia nos encontraríamos para vivermos tudo aquilo que não foi permitido. Separados pela vida, nunca por ausência de sentimentos. 

O amor nos versos da nossa adolescência. Um romance que ninguém nunca lerá. 

Depois de você, meu coração ficou tão quebradiço, corrompido por mentiras, rejeitando pedidos de perdão, carregando gritos contidos. Como posso esquecer certas coisas? Se não me liberto das sombras que levo por dentro?

Imagino teus passos, olho pra toda direção, desejando que você apareça e que possa me salvar disso tudo. Alguns anos depois você veio, numa tarde do mês de junho. Ninguém previu a confusão que faríamos, aflorando tudo em nós.

"Eu tinha esquecido você, estou sentindo tudo de novo" eu dizia e te beijava. "Você é linda" você dizia e me despia. 

Mala, chaveiro, vazio. A manhã fria me levou e depois você se foi. Nos meus sonhos, anseio pelo nosso reencontro em alguma curva do destino, esperando o momento certo: ninguém precisará partir.

... Talvez o único. 

Nadine

"Você parece tão jovem, como uma margarida nos meus olhos preguiçosos."
(escrito ao som de Interpol)

janeiro 18, 2015

resíduo

La vie d'Adèle

De tudo ficou um pouco
Do meu medo. Do teu asco.
Dos gritos gagos. Da rosa
ficou um pouco (...)

de ternura ficou um pouco
(muito pouco) (...)

Mas de tudo fica um pouco.
Da ponte bombardeada,
de duas folhas de grama,
do maço
- vazio - de cigarros, ficou um pouco. 

Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco de teu queixo 
no queixo de tua filha.
De teu áspero silêncio
um pouco ficou, um pouco
nos muros zangados,
nas folhas, mudas, que sobem. (...)

Se de tudo fica um pouco,
mas por que não ficaria
um pouco de mim? no trem
que leva ao norte, no barco, 
nos anúncios de jornal,
um pouco de mim em Londres, 
um pouco de mim algures?
na consoante?
no poço? (...)

E de tudo fica um pouco.
Oh abre os vidros de loção
e abafa
o insuportável mau cheiro da memória. 
(...)

Carlos Drummond de Andrade