23 dezembro, 2016

Sem amor, só a loucura

Eu não te amo mais. Como eu poderia te amar? Eu não sei nada sobre você. Não te vejo, tampouco ouço sua voz. Eu amo uma lembrança, tão distante que mal enxergo. Um vulto que me atravessa no meio da noite. Eu não amo sua pele, porque já não sei o que é tocá-la. Eu desconheço suas ideologias, não faço parte dos seus sonhos.

Como eu poderia te amar se não sei quem é você?

O que eu sinto não possui nome, ninguém tentou definir e pôr no dicionário. Meu diagnóstico diz que não tem cura. Está além da minha compreensão, nada mais que isso. Eu só sinto. Sinto muito.

Nadine

Watchmen 

08 dezembro, 2016

Nunca é muito tempo

Mirtle

Para Anatália

Eu nunca entendi porque pedi transferência para o turno da manhã, em plena metade do ano letivo. Eu nunca me perdoei por não ter te convencido a ir comigo. Éramos inseparáveis. Todos esses anos eu senti que tinha te abandonado. Quando você mais precisou, eu não estava lá. Eu poderia ter te salvado ou te protegido? Eu poderia ter morrido com você ou no seu lugar? Não existem respostas. 

Uma vez eu conheci o homem que te tirou de lá. Ele viu seu último suspiro. Eu trocaria todos os meus dias, antes e depois do acidente, para que a vida não tivesse deixado seu pequeno corpo. Ao contrário do que dizem, o tempo nunca amenizou, foi duro crescer sem você.

Às vezes eu avisto seu pai de longe e fico parada no meio do caminho. Ele sofre um pouco mais quando me vê, e eu também, sofro por vocês dois. Algumas vezes vou até ele e lhe dou um abraço, choramos em silêncio. Seus irmãos mais novos não me reconhecem, mas tudo bem. Sua irmã mais velha é sempre doce, igual a você. E sua mãe... Nossos abraços vêm regados com lágrimas, sempre falamos em você. Sempre. Certa vez antes de me despedir, ela disse “obrigada por existir”, foi a coisa mais bonita que já ouvi, meu coração teve conforto por um instante. 

Nós te amamos. E me perdoa, por não ter ficado ao seu lado.

Erllen Nadine

16 novembro, 2016

Ela


Às vezes eu acho que já senti tudo que eu deveria. 
E que não sentirei nada novo a partir de agora. 
Só versões menores do que já senti. 

Querida Catherine,

estou aqui pensando em tudo pelo que quero me desculpar. Toda a dor que causamos um ao outro. Tudo que coloquei em cima de você. Tudo que eu precisava que você fosse ou dissesse. Sinto muito por isso. Vou te amar para sempre, porque crescemos juntos. E você me ajudou a ser quem eu sou. Eu só queria que você soubesse que sempre haverá uma parte de você em mim. E sou grato por isso. Seja lá quem você se tornou, onde quer que você esteja no mundo, estou te mandando amor. Eu apaguei o final.

Com amor, Theodore.

Ela (Spike Jonze, 2013)

15 outubro, 2016

Ou tu (bro) ou nada III


Foi em outubro que nos conhecemos. Lembro bem porque eu voltava da praia após o feriado. Estava suja de camarão e vermelha como um, afinal, sou potiguar. Bukowski escreveu que “amor é o que acontece uma vez a cada dez anos”. Se ele disse é porque é. Isso significa que daqui a um ano estaremos livres. Poderemos finalmente amar outra pessoa. Não que a gente já não tenha amado durante todo esse tempo, mas você sabe, não era aquele amor. Então, daqui a um ano e talvez mais alguns sejam necessários, será que poderíamos novamente nos conhecer? 

- N.
Agnes Cecile 

14 outubro, 2016

Início de mim

Federico Pistillo

Prometo ser breve no que vou contar. Antes de qualquer coisa, saiba que não culpo alguém pelos meus infortúnios, nem deuses, destino ou astrologia. Não tenha medo, eu não faço mal a ninguém, não mais do que eu fiz a mim mesma. Não se assuste também, que a aflição não é contagiosa, eu acho.

Perdi as minhas batalhas, só restaram cicatrizes, cada vez que uma fechava, outra abria. Foi assim com a gente. Mudei de cidade e nada mudou. A segunda chance pros sonhos não veio. A verdade é que eu só estava fugindo, evitando a vida, os rostos conhecidos. Nada me fez ficar, nada me fez voltar. Eu não me encaixo em lugar nenhum. Todas as escolhas que fiz foram erradas, embora elas parecessem certas. Eu entrei em caminhos sem volta.

Já não lembro quando os amores falharam ou quando as amizades deixaram de sobreviver ao tempo. Eu me lembro de você. De ter chorado dias seguidos, do temor constante de te encontrar na esquina das minhas memórias, onde te escondi por tantos anos.

O que fez comigo? Levou metade minha, sem perceber eu destruí a outra parte. Atropelei meus sentimentos, e você... Não sei, nunca soube. Percebeu? Eu tento me desvendar, mas sempre vou ao mesmo lugar, o início de mim, você. 

Erllen Nadine

10 outubro, 2016

Você não passa de um substantivo abstrato

 (mas eu te quero tanto)

Cari Ann Wayan

A gente tá sempre se desencontrando.

Você dobrou a esquina no momento exato que me atrasei e por isso não nos esbarramos; sentei ao seu lado e pedi um café, a distração não te deixou perceber; vi-te na multidão, mas seguíamos direções opostas.

Bobagem minha, acreditar que você me procura em algum lugar. Que me achará mais cedo ou no entardecer. Então nos entenderemos pela primeira vez na vida e nenhuma explicação precisará ser feita, finalmente seremos felizes.

Logo você, que me refugiou diversas vezes e me jogou do precipício tantas outras. Será que algum dia nós nos perdoaremos?

Eu te desprezei há muito tempo para salvar o resto de mim. E o que restou? Tenho quase certeza que você ri do que me tornei. Mendigando um gole de você em cada vazio, em cada alma que mal toquei. Quase implorando para que você apareça e faça meu coração bater. BUM! Eu consigo sentir, estou viva! 

Bobagem sua, acreditar que eu te espero em qualquer lugar e que nunca mais fugirei. Diga-me uma única vez que você não me despedaçou? Eu te quero, te amo, mas não preciso de você. Não mais. Não ter você é uma dádiva tanto quanto ter. Ah, meu (des)conhecido agridoce, o Amor. 

Erllen Nadine

"Amor é o que acontece uma vez a cada dez anos." (Buk)

Título: inspirado em Caio F.

02 outubro, 2016

- Nem com você, nem sem você.



— É verdade, eu te odiei. Muito, profundamente. Mas não mais. Eu mudei muito, não? 
— Sim, é verdade, você mudou. Era cedo demais. Se tivéssemos nos conhecido agora, talvez tivesse funcionado. 
— Sim, talvez. Mas já nos conhecemos. 
— Não é a mesma coisa. 
— Sabe que está muito mais bela que antes? Sério. Nós éramos jovens demais, agora podemos lidar com isso melhor, não acha? 
— Não, eu não acho. E não estou a procura de nada.  
— Mas nós nos amávamos. 
— Ah, não realmente, fui eu quem te amou. Você estava apaixonado. Não é a mesma coisa. 
— Naturalmente, você disse "eu te amo" porque eu te amava, e então...
— E então, não parecia ser razão suficiente? 

— Eu me casei para me livrar de você, para esquecê-lo. Você me magoou tanto que decidi casar-me com o primeiro que me pedisse gentilmente. 
— Por que não esquecemos tudo e fugimos agora? Tenho certeza que seremos felizes. 
— Oito anos atrás... Você realmente me amava?
— Eu era louco por você, eu te adorava, mas eu preferia me matar antes que você soubesse disso. 
— Você lembra o que me disse, oito anos atrás? E Deus sabe o quanto me doeu ouvir você dizer que: "Todas as histórias de amor precisam ter um início, um meio e um fim."

— Você pode amar ou ser amado uma segunda vez. 
— Mas precisa saber como ser amado. E eu não valho nada. Existe algo em mim que faz com que as pessoas me rejeitem. 

A Mulher do Lado (François Truffaut, 1981)

29 setembro, 2016

dei um nome para minha dor. eu a chamo "Assalto"

fora de forma. doente. mal segurando minha alma no corpo (...)

dor atravessa as sombras desse quarto
posso senti-la em meus braços
posso ouvi-la rodar em meu ventilador barato (...)

ah, meu companheiro!
nós tomamos banho juntos, dormimos juntos,
comemos juntos, nós
abrimos cartas juntos.
nós escrevemos poemas juntos
nós lemos poemas juntos.

uns dizem que amo minha dor. 

sim, eu a amo tanto que gostaria de dá-la pra você
embrulhada com uma fita vermelha
embrulhada com uma fita vermelha de sangue
pode ficar com ela
pode ficar com ela toda.
eu nunca vou sentir falta.

estou tentando me livrar dela, acredite
poderia empurrá-la em sua caixa de correio
ou atirá-la no banco de trás de seu carro.

mas agora
aqui na av. De Longpre 
nós temos apenas
um ao outro. 

fragmento do poema "Assalto", Charles Bukowski:
essa loucura roubada que não desejo a ninguém a não ser a mim mesmo amém.

Edward Hopper + Ursula Murray

22 setembro, 2016

Erell



"Andando por aí com minha alma doente.
Mente quebrada... cheia de nuvens escuras e pensamentos assustadores.
Coração partido... nenhuma esperança deixada para junho.
Bem, aqui estou eu, todos aqueles pedaços de mim.
E eu vou dar-lhe todos, para você tentar me consertar.
Vida quebrada... onde nada parece justo. (...)
Te ofereci essa versão de mim.
Com amor e carinho você levou tudo.
Você abriu meus olhos sobre essa vida que eu não podia ver.
E você botou para fora a sombra da minha alma.
Bem, aqui estou eu, agora inteira. 
Meu amigo, meu amor... obrigada por me consertar."

ouvir

Pedaços de Mim (Nolwenn Lemesle, 2012)

10 setembro, 2016

Estranhos

Her

"Os casais deveriam se separar no auge da paixão. 
E não esperar o inevitável declínio." 
(Lua de Fel - Polanski)

Passaram anos encarando o silencioso sofrimento um do outro. Nada fizeram quando deveria e agora já não se compreendiam tampouco se amavam. Aos poucos, qualquer banalidade dilacerava.

(noites afora, excesso de cigarro, quando ela o ignorava, a risada sarcástica, a gramática errada... não suportavam... não suportavam ainda se desejarem).

Certa vez, atordoado, ele olhou para o reflexo do espelho e não se viu. Naquele corpo, outra pessoa residia. Alguém mutilado pelos sonhos não concretizados, frustrado pelo amor desperdiçado. No cômodo ao lado, ela tremia, ouvindo os pensamentos dele que ecoavam pelas paredes finas. Respondendo suas próprias perguntas. Não sabia mais conviver com ele, muito menos sem.

(- e o que faço sem você? - o que não estamos fazendo: viver).

Eles eram dois solitários que nunca ficaram sozinhos. Uma paixão atrás da outra, daquelas que faz o coração gritar e depois, nada a dizer. Eram as pessoas erradas no tempo certo. As pessoas certas no tempo errado. Ou ambos. E acabava assim, como sempre acaba. 

Às vezes o amor é rigoroso demais. Você se entrega, mas não é suficiente. Às vezes o amor é tão leve, que se você não cuidar, ele sai das suas veias e ganha o mundo, vai embora sem dizer adeus. E você fica se perguntando o que deu errado, repetindo incansavelmente na mesa de bar, que nunca mais amará. 

Em alguns casos nem é amor. Mas quem sou eu para saber? Eu que não amo há tanto tempo.

Erllen Nadine

escrito ao som de

13 agosto, 2016

Tenho uma guerra na minha cabeça


"Uma dor de pedaços que não voltam. Eu sou muitas pessoas destroçadas."
 
(Manoel de Barros)

De pai, só tive o nome no documento, que eu gostaria de passar corretivo e esquecer para sempre. Quanto a minha mãe, vivemos constantemente em desavenças. Desde cedo, lidando com rejeições; quem dera meu amor fosse o bastante. Os amigos que sobraram estão longe... Fisicamente, sentimentalmente. E pior, cada vez mais eles vão perdendo sua importância. O que resta quando ninguém sente a tua falta e você não sente falta de ninguém? A solidão vira abrigo. Você se acostuma com a sensação de estar sozinha no mundo, que mais nada te preenche, de querer sumir e não ter para onde ir. Juntando isso, as várias decisões erradas ao longo dos anos e o fato do tempo ser irreversível: a mente pesa, destrói aos poucos. A impossibilidade diante da vida, eu varro para debaixo do tapete como se não tivesse a beira de um ataque de nervos.

A dor nunca foi tão palpável. E eu, tão sincera.

Erllen Nadine


Título: Ride - Lana Del Rey. 

10 agosto, 2016

Maktub


"Maktub significa estava escrito, ou melhor, tinha que acontecer." (Oriente)

Eu vasculho canções querendo te encontrar. Escrevo cartas, mensagens, e-mails, que nunca são enviados. Neles, eu digo que sinto sua falta, que te quero tanto que isso fecha qualquer ferida. Eu tento explicar minhas escolhas tortas. E quero saber também, do que você guarda no fundo do coração. 

Sou louca o suficiente para tentar uma reaproximação, no entanto, sou covarde o bastante para desistir no último momento. Tenho medo, medo do que aconteceria se você aceitasse ou dissesse não. Prefiro não tentar. Volto para dentro de mim e escondo tudo que sinto.

Convenço-me que não temos mais tempo, mas acredito porque acredito que o meu destino é o seu. Nossa história sobrevive em mim, é verdadeira demais para me abandonar.

Erllen Nadine

"Ela é Leão, uma estrela. Você é Aquário, o oposto. Sabe aquela coisa, se atraem e repelem? Tudo vai dar certo. Afinal, vocês tem as luas em conjunção... Já devem ter tido algumas encarnação juntos." (Onde Andará Dulce Veiga? - Caio F.)

01 agosto, 2016

Aos (des)amores descartáveis


Já faz um ano ou pouco mais que isso, desde a última vez que escrevi sobre nós. E se não escrevo, é porque não sinto. E por que logo agora? Às vezes as coisas simplesmente vêm à tona. Depois de processar tudo que vivi, percebi que dois anos após o fim, eu tinha algo a te dizer. Mas antes, é necessário esclarecer que foi uma longa caminhada até aqui:

1) sofrimento 2) raiva 3) culpa 4) solidão 5) autorreflexão 6) recomeço [...].

Quando você foi embora, você fez questão de desestabilizar meu emocional o máximo possível. Desse modo, não ouse achar que existe algum perdão, como uma vez você pediu. Eu não sou tão boa assim. Foram passos curtos, até chegar um momento que toda aquela dor para de fazer sentido. Aos poucos, as lembranças iam se distanciando a ponto de eu não reconhecê-las e então, não serem minhas. Não era eu, tampouco você.

Eu consigo lembrar, sem me encher de mágoa, rancor e muito menos saudade dos anos bons. Sim, porque a gente foi feliz, eu pelo menos fui durante alguma estação. A vida não é como meu filme favorito, não se pode apagar pessoas da memória. Ser indiferente a tudo isso é o que sobrou. E por tanto, eu te digo:

Obrigada por partir meu coração, eu precisava disso. Porque era a maneira mais rápida de me libertar daquele relacionamento, que me machucava tanto, mas por excesso de "amor" e ausência do mesmo, eu nem sequer percebia. 

Obrigada por partir meu coração, em mil pedacinhos.

Se antes eu chorava e me desesperava, hoje eu sinto orgulho. Sozinha juntei meus cacos, estou aqui, às vezes perdida e outras dolorida, mas não por você, nem por ninguém além de mim mesma. E essa é a dura lição que carrego: neutralizar o passado o suficiente para viver em paz.

E se não sinto, é porque esqueci.

Erllen Nadine



23 junho, 2016

Sem jazz

Escrito com gosto de lágrima e ao som de Radiohead.

Queria acreditar que não era você observando o sol desaparecer no mar, numa tarde silenciosa de setembro e depois me olhou como se fosse o fim. E era.

Na minha cabeça, eu revivi nossa história centenas de vezes. Até compreender que naquele tempo já não havia mais tempo, para amar e desamar na mesma intensidade com que despimos o corpo e a alma. O que tínhamos além de um punhado de memórias que já não nos pertenciam? Que foram esmagadas pelos anos de nossas vidas. 

A gente nunca pôde viver o que sentíamos. Despedimo-nos mais vezes do que posso me lembrar, magoamo-nos muito mais. Quando éramos inocentes querendo amar. Quando aprendemos a amar e fingíamos que não. 

Quando o frágil laço que nos unia partiu-se, eu quis arrancar você de mim a qualquer custo, apagar suas digitais da cena do crime. Eu nunca consegui, porque você é parte essencial no quem sou eu, você foi a melhor coisa que floresceu em mim. Dos meus desatinos, é o único com sobrenome amor. 

Queria acreditar que era você que dançava entre as luzes neon, anos depois. Beijou-me sem fim e disse algo que até hoje tento decifrar. Estávamos tão felizes. Foi real e apenas um sonho.

Aquário e leão e infinitas possibilidades. Mas nenhuma era para ser. 

Erllen Nadine

"onze meses. 
agora ela se foi como todas se vão. 
desta vez o negócio acabou comigo. 
é um longo caminho de volta 
mas de volta para onde?
(O amor é um cão dos diabos - Bukowski)

Imagem by Mirtle.

Um dia de cada





"E em sua vida, chega uma escuridão.
E não há lugar para se esconder.
Você teve o bastante de mim?
Se você tivesse outro nome... doce escuro."

22 março, 2016

A liberdade é a possibilidade do isolamento

Mirtle

      A liberdade é a possibilidade do isolamento. És livre se podes afastar-te dos homens, sem que te obrigue a procurá-los a necessidade de dinheiro, ou a necessidade gregária, ou o amor, ou a glória, ou a curiosidade, que no silêncio e na solidão não podem ter alimento. Se te é impossível viver só, nasceste escravo. Podes ter todas as grandezas do espírito, todas da alma: és um escravo nobre, ou um servo inteligente: não és livre. (...) Ai de ti, porém, se a opressão da vida, ela própria, te força a seres escravo. Ai de ti se, tendo nascido liberto, capaz de te bastares e de te separares, a penúria te força a conviveres. Essa, sim, é a tua tragédia, e a que trazes contigo (...).
        A morte é uma libertação porque morrer é não precisar de outrem. O pobre escravo vê-se livre à força dos seus prazeres, das suas mágoas, da sua vida desejada e contínua. Vê-se livre o rei dos seus domínios, que não queria deixar. As que espalharam amor veem-se livres dos triunfos que adoram. Os que venceram veem-se livres das vitórias para que a sua vida se fadou (...). Fecho, cansado, as portas das minhas janelas, excluo o mundo e um momento tenho a liberdade. Amanhã voltarei a ser escravo; porém agora, só, sem necessidade de ninguém, receoso apenas que alguma voz ou presença venha interromper-me, tenho a minha pequena liberdade, os meus momentos de excelsis.
        Na cadeira, aonde me recosto, esqueço a vida que me oprime. Não me dói senão ter-me doído.


Bernardo Soares
O Livro do Desassossego

24 janeiro, 2016

Procurando por amor em lugares errados

La vie d'Adèle

"Ele estava absolutamente seguro de sua escolha de homem 
independente que não necessita mais dessas bobagens de amor." 
(Mel e Girassóis - Caio F.)

Já previ nosso fim, antes mesmo de um início apropriado. Será nossa primeira e única briga. Estarei te implorando para que me deixe amá-lo, e mesmo que também queira você não permitirá, nem olhará nos meus olhos novamente.

Certamente, nessa altura da vida, estaremos tão mutilados que já não conseguiremos apalpar o amor; prazer e dor não se distinguem mais. Eu então partirei sem me despedir, aceitando meu desastre de ser quem eu sou no dilema irremediável dos amores incompreendidos.

Anos depois, nos esbarraremos numa roda de samba, eu vou te enxergar no final de uma canção e você me ouvirá em notas desconhecidas. Tão sozinhos, sozinhos.

Desculpa a sinceridade e o tanto de pessimismo - eu tentei, porém não sinto nada, além disso. Roubaram minha esperança há muito tempo. E antes do não e da falta de explicação, continue: ama-me em segredo.

O que restar será cinza para preencher os buracos da nossa existência.  

Erllen Nadine


Título: The Blackest Day - Lana Del Rey.

18 janeiro, 2016

Por não estarem distraídos


         Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles (...). Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mas com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, por não estarem distraídos. 

Clarice Lispector
A Descoberta do Mundo

15 janeiro, 2016

Olá, mágoa

Por favor, envolva seus braços embriagados ao meu redor
e vou deixar você me chamar de sua essa noite,
porque essa leve magoa é o que eu preciso.
Por favor, me diga que eu sou a sua única
ou minta, e diga que sim ao menos esta noite.
Tenho uma nova cura para a solidão.

Emoções não são tão difíceis de pegar emprestado,
quando “amor” é uma palavra que você nunca aprendeu.
E em uma sala repleta de garrafas vazias,
se você me der um último cigarro...
Eu só quero esquecer de tudo.

Quando você desliga as luzes, eu vejo estrelas nos meus olhos.
Isso é amor? Talvez algum dia.
Tenho a cena na minha cabeça, não sei bem como termina.
Então, não ligue as luzes, vou te dar o que você gosta.



Título: Hello Heartache - Avril.

11 janeiro, 2016

I will be king

Christiane F. 

É um pequeno e terrível caso
para a garota de cabelo castanho claro,
apesar de sua mamãe estar gritando: Não!
Mas o amigo dela não está em lugar algum
e agora ela anda atrás do seu sonho naufragado
naqueles assentos com a melhor vista.
Ela fica vidrada na tela do cinema,
mas o filme é tristemente chato
pois ela viveu isso mais de dez vezes (...)
Afinal, existe vida em Marte?

(Life On Mars?)

David Bowie 

05 janeiro, 2016

Jess


Se eu nunca ver você de novo
Eu sempre vou levar você
dentro
fora

na ponta dos meus dedos
e nas bordas do meu cérebro

e em centros
centros
do que eu sou do
que restou.

Bukowski 

Mirtle