setembro 29, 2016

dei um nome para minha dor. eu a chamo "Assalto"

fora de forma. doente. mal segurando minha alma no corpo (...)

dor atravessa as sombras desse quarto
posso senti-la em meus braços
posso ouvi-la rodar em meu ventilador barato (...)

ah, meu companheiro!
nós tomamos banho juntos, dormimos juntos,
comemos juntos, nós
abrimos cartas juntos.
nós escrevemos poemas juntos
nós lemos poemas juntos.

uns dizem que amo minha dor. 

sim, eu a amo tanto que gostaria de dá-la pra você
embrulhada com uma fita vermelha
embrulhada com uma fita vermelha de sangue
pode ficar com ela
pode ficar com ela toda.
eu nunca vou sentir falta.

estou tentando me livrar dela, acredite
poderia empurrá-la em sua caixa de correio
ou atirá-la no banco de trás de seu carro.

mas agora
aqui na av. De Longpre 
nós temos apenas
um ao outro. 

fragmento do poema "Assalto", Charles Bukowski:
essa loucura roubada que não desejo a ninguém a não ser a mim mesmo amém.

Edward Hopper + Ursula Murray

setembro 22, 2016

Pedaços de mim

canção do filme: Des Morceaux de Moi (2012), de Nolwenn Lemesle

"Andando por aí com minha alma doente.
Mente quebrada... cheia de nuvens escuras e pensamentos assustadores.
Coração partido... nenhuma esperança deixada para junho.
Bem, aqui estou eu, todos aqueles pedaços de mim.
E eu vou dar-lhe todos, para você tentar me consertar.
Vida quebrada... onde nada parece justo. (...)
Te ofereci essa versão de mim.
Com amor e carinho você levou tudo.
Você abriu meus olhos sobre essa vida que eu não podia ver.
E você botou para fora a sombra da minha alma.
Bem, aqui estou eu, agora inteira. 
Meu amigo, meu amor... obrigada por me consertar."

setembro 10, 2016

Estranhos

Her

"Os casais deveriam se separar no auge da paixão. 
E não esperar o inevitável declínio." 
(Lua de Fel - Polanski)

Passaram anos encarando o silencioso sofrimento um do outro. Nada fizeram quando deveria e agora já não se compreendiam tampouco se amavam. Aos poucos, qualquer banalidade dilacerava.

(noites afora, excesso de cigarro, quando ela o ignorava, a risada sarcástica, a gramática errada... não suportavam... não suportavam ainda se desejarem).

Certa vez, atordoado, ele olhou para o reflexo do espelho e não se viu. Naquele corpo, outra pessoa residia. Alguém mutilado pelos sonhos não concretizados, frustrado pelo amor desperdiçado. No cômodo ao lado, ela tremia, ouvindo os pensamentos dele que ecoavam pelas paredes finas. Respondendo suas próprias perguntas. Não sabia mais conviver com ele, muito menos sem.

(- e o que faço sem você? - o que não estamos fazendo: viver).

Eles eram dois solitários que nunca ficaram sozinhos. Uma paixão atrás da outra, daquelas que faz o coração gritar e depois, nada a dizer. Eram as pessoas erradas no tempo certo. As pessoas certas no tempo errado. Ou ambos. E acabava assim, como sempre acaba. 

Às vezes o amor é rigoroso demais. Você se entrega, mas não é suficiente. Às vezes o amor é tão leve, que se você não cuidar, ele sai das suas veias e ganha o mundo, vai embora sem dizer adeus. E você fica se perguntando o que deu errado, repetindo incansavelmente na mesa de bar, que nunca mais amará. 

Em alguns casos nem é amor. Mas quem sou eu para saber? Eu que não amo há tanto tempo.

Erllen Nadine

escrito ao som de