15/10/2016

Ou tu (bro) ou nada III


Foi em outubro que nos conhecemos. Lembro bem porque eu voltava da praia após o feriado. Estava suja de camarão e vermelha como um, afinal, sou potiguar. Bukowski escreveu que “amor é o que acontece uma vez a cada dez anos”. Se ele disse é porque é. Isso significa que daqui a um ano estaremos livres. Poderemos finalmente amar outra pessoa. Não que a gente já não tenha amado durante todo esse tempo, mas você sabe, não era aquele amor. Então, daqui a um ano e talvez mais alguns sejam necessários, será que poderíamos novamente nos conhecer? 

- N.
Agnes Cecile 

14/10/2016

Início de mim

Federico Pistillo

Prometo ser breve no que vou contar. Antes de qualquer coisa, saiba que não culpo alguém pelos meus infortúnios, nem deuses, destino ou astrologia. Não tenha medo, eu não faço mal a ninguém, não mais do que eu fiz a mim mesma. Não se assuste também, que a aflição não é contagiosa, eu acho.

Perdi as minhas batalhas, só restaram cicatrizes, cada vez que uma fechava, outra abria. Foi assim com a gente. Mudei de cidade e nada mudou. A segunda chance pros sonhos não veio. A verdade é que eu só estava fugindo, evitando a vida, os rostos conhecidos. Nada me fez ficar, nada me fez voltar. Eu não me encaixo em lugar nenhum. Todas as escolhas que fiz foram erradas, embora elas parecessem certas. Eu entrei em caminhos sem volta.

Já não lembro quando os amores falharam ou quando as amizades deixaram de sobreviver ao tempo. Eu me lembro de você. De ter chorado dias seguidos, do temor constante de te encontrar na esquina das minhas memórias, onde te escondi por tantos anos.

O que fez comigo? Levou metade minha, sem perceber eu destruí a outra parte. Atropelei meus sentimentos, e você... Não sei, nunca soube. Percebeu? Eu tento me desvendar, mas sempre vou ao mesmo lugar, o início de mim, você. 

Erllen Nadine

10/10/2016

Você não passa de um substantivo abstrato

 (mas eu te quero tanto)

Cari Ann Wayan

A gente tá sempre se desencontrando.

Você dobrou a esquina no momento exato que me atrasei e por isso não nos esbarramos; sentei ao seu lado e pedi um café, a distração não te deixou perceber; vi-te na multidão, mas seguíamos direções opostas.

Bobagem minha, acreditar que você me procura em algum lugar. Que me achará mais cedo ou no entardecer. Então nos entenderemos pela primeira vez na vida e nenhuma explicação precisará ser feita, finalmente seremos felizes.

Logo você, que me refugiou diversas vezes e me jogou do precipício tantas outras. Será que algum dia nós nos perdoaremos?

Eu te desprezei há muito tempo para salvar o resto de mim. E o que restou? Tenho quase certeza que você ri do que me tornei. Mendigando um gole de você em cada vazio, em cada alma que mal toquei. Quase implorando para que você apareça e faça meu coração bater. BUM! Eu consigo sentir, estou viva! 

Bobagem sua, acreditar que eu te espero em qualquer lugar e que nunca mais fugirei. Diga-me uma única vez que você não me despedaçou? Eu te quero, te amo, mas não preciso de você. Não mais. Não ter você é uma dádiva tanto quanto ter. Ah, meu (des)conhecido agridoce, o Amor. 

Erllen Nadine

"Amor é o que acontece uma vez a cada dez anos." (Buk)

Título: inspirado em Caio F.

02/10/2016

- Nem com você, nem sem você.



— É verdade, eu te odiei. Muito, profundamente. Mas não mais. Eu mudei muito, não? 
— Sim, é verdade, você mudou. Era cedo demais. Se tivéssemos nos conhecido agora, talvez tivesse funcionado. 
— Sim, talvez. Mas já nos conhecemos. 
— Não é a mesma coisa. 
— Sabe que está muito mais bela que antes? Sério. Nós éramos jovens demais, agora podemos lidar com isso melhor, não acha? 
— Não, eu não acho. E não estou a procura de nada.  
— Mas nós nos amávamos. 
— Ah, não realmente, fui eu quem te amou. Você estava apaixonado. Não é a mesma coisa. 
— Naturalmente, você disse "eu te amo" porque eu te amava, e então...
— E então, não parecia ser razão suficiente? 

— Eu me casei para me livrar de você, para esquecê-lo. Você me magoou tanto que decidi casar-me com o primeiro que me pedisse gentilmente. 
— Por que não esquecemos tudo e fugimos agora? Tenho certeza que seremos felizes. 
— Oito anos atrás... Você realmente me amava?
— Eu era louco por você, eu te adorava, mas eu preferia me matar antes que você soubesse disso. 
— Você lembra o que me disse, oito anos atrás? E Deus sabe o quanto me doeu ouvir você dizer que: "Todas as histórias de amor precisam ter um início, um meio e um fim."

— Você pode amar ou ser amado uma segunda vez. 
— Mas precisa saber como ser amado. E eu não valho nada. Existe algo em mim que faz com que as pessoas me rejeitem. 

A Mulher do Lado (François Truffaut, 1981)