13 setembro, 2017

Coisas que nunca te disse



Tudo pode acontecer, certo? Qualquer coisa. Você pode amar tanto uma pessoa, que tão somente o medo de perdê-la faz com que você arruíne tudo e acabe perdendo-a de qualquer jeito. Você pode acordar ao lado de alguém a quem não havia imaginado conhecer algumas horas antes, e olhe para você agora... É como se alguém te presenteasse com um desses quebra-cabeças com peças de um quadro de Magritte, ou uma foto de alguns pôneis, ou das cataratas do Niágara, e eles parecem ter sentido, mas não tem. 

Eu acho que a fé é incrivelmente injusta. É injusto que haja pessoas que a tenham e outras não. Não nos damos conta quando estamos felizes, e isso também é injusto. Deveríamos poder viver a felicidade e poder guardá-la para quando ela faltasse... Só um pouquinho, como se guarda cereal extra na dispensa, como o papel higiênico no banheiro. 

Você costumava me perguntar em que momento eu comecei a te amar. O momento em que eu comecei a te amar foi quando você ligou dizendo que estava me deixando. Justamente nesse momento, esqueci nosso amor de antes, esqueci a ternura, o sexo, sua língua... E percebi que antes era só um reflexo do que é o amor, que antes nunca havia amado. Assim é como se sente, agora eu sei quando se ama alguém. Te amo como sonhava amar alguém quando adolescente. E agora rezo para que nunca mais volte a sentir isso. Não é que queira que voltemos a ficar juntos, é só para que você saiba como me sinto.

Às vezes penso em reconhecer a Ann em alguma rua. Ainda que a encontrasse um dia, teríamos que começar de novo, claro. Eu gostaria... Há muitas coisas que eu gostaria de ter dito a ela. As coisas que você sempre diz serem as mais importantes. Mas, não é sempre assim? Eu gostaria de encontrá-la para dizer isso. Tudo pode acontecer, certo?


Coisas Que Nunca Te Disse (Isabel Coixet, 1996)

10 setembro, 2017

Setembro, o tempo e nós

Escrito ao som de nobody else will be there (The National)


Porque é setembro, como uma nuvem pairada nas minhas memórias, daquelas que nunca dispersam.

E por ser setembro, eu sonho constantemente com você, quase sempre acordada. Penso no que estará fazendo, se passou nas provas, pintou o cabelo, se está tudo bem, se já ama outra pessoa. Sinto-me tão estúpida, é como se eu estivesse disposta a me humilhar por qualquer migalha que você pudesse me dar. Um pedacinho de você, uma noite com você. Isso não é triste? É, mas eu não ligo.

Vez em quando olho para trás e sorrio discretamente; outras vezes sigo em frente. Existe esse medo dolorido de encontrar a saudade vagando entre lembranças e não poder fazer nada. Eu me recuso a deixar que o tempo te leve, como se o tempo fosse capaz de consertar qualquer coisa.

Sou incapaz de cumprir uma promessa e por isso aqui estou, mergulhando nas profundezas do seu aquário, tentando segurar em suas mãos inexistentes. Eu aceitei, não foi a condição de ter você só pra mim, foi a condição de nunca mais te ter. Talvez, quando o amor for reinventado, eu não terei mais o que dizer. Até lá, sigo contando os dias.

Porque é setembro, e setembro dói um pouco mais, faz parte de tudo àquilo que não vivemos.


Erllen Nadine
Agosto, o tempo e eu 

13 agosto, 2017

Vou nunca mais ter nascido em agosto



Queria viver e (re)amar, não necessariamente nessa ordem.
Optou silenciosamente por guardar seu resto de felicidade. 
Depois, quis morrer tantas vezes, que já nem planejava mais.
Hoje não, hoje queria deitar na beira do mar e dizer coisas sem sentido.

Paixão, saudade, não sabe que fins levaram. 
Precisaria de cinco minutos para resumir a vida, 
mas levaria o resto da mesma para dizer o que se sente, 
embora quase já não sinta.

Queria escrever.
Mas não havia nada que justificasse as linhas. 
Só hoje aprendeu que um coração partido dói menos que um vazio.
Quem diria que feridas seladas dariam nisso. 

- N.


Título: Manoel de Barros. 

07 julho, 2017

Your silence is the most violent


Quando uma música traduz tudo que você sente: 

Não posso te chamar de estranho
Mas não posso te ligar
Eu sei que você acha que apaguei você
Você pode me odiar, mas eu não posso te odiar
E eu não vou te substituir

Diga-me como devo me sentir sobre você agora
Oh, deixe-me saber
Eu sufoco ou deixo pra lá?

Acho que estou cansada de superar isso
De recomeçar algo novamente
Estou ficando cansada de começos
E de sempre chegar às suas defesas

Acho que é bom tirar isso do meu peito
Acho inacreditável que ainda não tenha tirado
Você sabe que tenho minhas próprias convicções
E elas são mais fortes do que qualquer vício
Mas ninguém está ganhando

Você me mantém de pé com seu silêncio
Me derruba com sua quietude
De todas as armas com as quais você luta
Seu silêncio é o mais violento

Você não precisa me dizer
Se você pensa em mim
Eu sei que você diz que está ocupada
No nevoeiro selvagem de sua memória
Você não precisa me dizer
Eu ainda posso acreditar.

30 maio, 2017

- Aqui está, adeus.

Anna Karina - 1963

— Por que veio aqui?
— Tenho 24 anos. Quero lembrar-me disso pelo menos uma vez [...]. Eu te amo... E você já entendeu como. Mas dizê-lo hoje, nestas condições, é como se estivesse orando por um filho nosso que morreu.

Nunca mais a vi. E depois do fim da guerra, voltei à Grécia devido a um mau pressentimento. Não iria reencontrá-la. Você tinha ido embora sem nunca olhar para trás. Mas tive a impressão de rever seu rosto anos depois, nos últimos versos de uma poesia, como quando você se virou e com a mão livre na frente da nuvem dos cabelos, me disse adeus para entrar na escuridão.

Mulheres no Front (Valerio Zurlini, 1965)

16 abril, 2017

Um destinatário sem endereço


"Eu não me arrependo de você. 
Não, nada irá neste mundo apagar 
o desenho que temos aqui." 
(Caetano Veloso)


     Eu te escrevi algumas vezes, cartas sem endereço que foram desfeitas minutos depois. Após algum tempo, escrevi novamente, mas não conseguia finalizar, sempre faltava algo: um sentido, uma frase que não podia ser dita; talvez o ponto final não existisse para nós. Não sei por que logo hoje, algo embaçou meus olhos e cortou minha garganta, e não foram as palavras, essas que já não existem.
     Estou aqui porque pensei em você, sem remorso ou mágoa, juro que não doeu. Eu pensei em você de um jeito doce, como quando caminhamos nervosamente entre árvores ou ouvimos o som do mar, por um breve instante de paz. Lembrei de uma vez em que escutei seu sotaque numa fila de embarque, quis tanto que fosse você. Depois quase reconheci sua sombra dobrando a esquina, onde vi pela última vez seus grandes olhos brilhantes me encarando. Equilibrei-me no meio fio e segui em frente, embora eu nunca tenha saído do mesmo lugar.
     Há muito tempo deixei de me martirizar, me perdoei e te perdoei, por tudo de ruim que fizemos a nós mesmos, lá... Desde o início. Quem sabe um dia você me perdoe também. Talvez tenhamos feito à decisão mais sensata das nossas vidas (provavelmente a mais estúpida também). Só desejo que você esteja bem. Eu te amei muito, ouso dizer que 



14 abril, 2017

A descoberta do mundo



"(...) eu me transformara numa mocinha alta, pensativa, rebelde, tudo misturado a bastante selvageria e muita timidez. Antes de me reconciliar com o processo da vida, no entanto, sofri muito, o que poderia ter sido evitado se um adulto responsável se tivesse encarregado de me contar como era o amor. Esse adulto saberia lidar com uma alma infantil sem martirizá-la com a surpresa, sem obrigá-la a ter toda sozinha que se refazer para de novo aceitar a vida e os seus mistérios. Porque o mais surpreendente é que, mesmo depois de saber de tudo, o mistério continuou intacto. Embora eu saiba que de uma planta brota uma flor, continuo surpreendida com os caminhos secretos da natureza. E se continuo até hoje com pudor não é porque ache vergonhoso, é pudor apenas feminino. Pois juro que a vida é bonita."

A Descoberta do Mundo - Clarice Lispector

01 janeiro, 2017