13 setembro, 2017

Coisas que nunca te disse



Tudo pode acontecer, certo? Qualquer coisa. Você pode amar tanto uma pessoa, que tão somente o medo de perdê-la faz com que você arruíne tudo e acabe perdendo-a de qualquer jeito. Você pode acordar ao lado de alguém a quem não havia imaginado conhecer algumas horas antes, e olhe para você agora... É como se alguém te presenteasse com um desses quebra-cabeças com peças de um quadro de Magritte, ou uma foto de alguns pôneis, ou das cataratas do Niágara, e eles parecem ter sentido, mas não tem. 

Eu acho que a fé é incrivelmente injusta. É injusto que haja pessoas que a tenham e outras não. Não nos damos conta quando estamos felizes, e isso também é injusto. Deveríamos poder viver a felicidade e poder guardá-la para quando ela faltasse... Só um pouquinho, como se guarda cereal extra na dispensa, como o papel higiênico no banheiro. 

Você costumava me perguntar em que momento eu comecei a te amar. O momento em que eu comecei a te amar foi quando você ligou dizendo que estava me deixando. Justamente nesse momento, esqueci nosso amor de antes, esqueci a ternura, o sexo, sua língua... E percebi que antes era só um reflexo do que é o amor, que antes nunca havia amado. Assim é como se sente, agora eu sei quando se ama alguém. Te amo como sonhava amar alguém quando adolescente. E agora rezo para que nunca mais volte a sentir isso. Não é que queira que voltemos a ficar juntos, é só para que você saiba como me sinto.

Às vezes penso em reconhecer a Ann em alguma rua. Ainda que a encontrasse um dia, teríamos que começar de novo, claro. Eu gostaria... Há muitas coisas que eu gostaria de ter dito a ela. As coisas que você sempre diz serem as mais importantes. Mas, não é sempre assim? Eu gostaria de encontrá-la para dizer isso. Tudo pode acontecer, certo?


Coisas Que Nunca Te Disse (Isabel Coixet, 1996)

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