18/01/2015

resíduo

La vie d'Adèle

De tudo ficou um pouco
Do meu medo. Do teu asco.
Dos gritos gagos. Da rosa
ficou um pouco (...)

de ternura ficou um pouco
(muito pouco) (...)

Mas de tudo fica um pouco.
Da ponte bombardeada,
de duas folhas de grama,
do maço
- vazio - de cigarros, ficou um pouco. 

Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco de teu queixo 
no queixo de tua filha.
De teu áspero silêncio
um pouco ficou, um pouco
nos muros zangados,
nas folhas, mudas, que sobem. (...)

Se de tudo fica um pouco,
mas por que não ficaria
um pouco de mim? no trem
que leva ao norte, no barco, 
nos anúncios de jornal,
um pouco de mim em Londres, 
um pouco de mim algures?
na consoante?
no poço? (...)

E de tudo fica um pouco.
Oh abre os vidros de loção
e abafa
o insuportável mau cheiro da memória. 
(...)

Carlos Drummond de Andrade


2 comentários:

  1. Ahh Carlos Drummond de Andrade, lindo demais!
    Sempre ira ficar algo, nada se perde assim no tempo.
    Lindo!
    asoonhadora.blogspot.com

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"Um sorriso que derreta satélites e corações gelados."