Mostrando postagens com marcador Laura e Pedro. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Laura e Pedro. Mostrar todas as postagens

16 de abril de 2015

No amor, não cabe um substituto



 Você tinha uma ideia sobre o amor e moldou seus desejos em mim porque algo te fascinou. Não era amor, mas só eu sei. 
 "Não era amor". Como pude te amar tanto? Odeio tudo que me fez e o que ainda me faz sentir. E odeio o fato que nunca mais te terei.
– Você nunca me teve por inteiro.

Ele me olha como um animal ferido, preso na sua própria armadilha. As mãos trêmulas acendem mais um cigarro. 

– Você ainda gosta de partir corações? Você ainda vive como se tivesse vinte anos?
 Eu... Eu.

Ela me olha rapidamente, toma o cigarro para seus lábios carnudos e me seduz sem nenhuma intenção. 

– Por que você foi embora?
– Eu te disse anos atrás.
 Por quê?
 Porque você não era o único.
– Eu ainda sei quando está mentindo. Por quê? 

(Silêncio. E a verdade mais doída da sua vida). 

 Porque eu não era a única! Porque eu queria ser a mãe dos seus filhos e sabia que nunca ia ser. Você me despedaçou, mas nunca admitiu, tampouco percebeu. 

Dessa vez ela tinha se despido por completo: vi sua alma melancólica e dolorosamente bonita. Chorei silenciosamente, estendi uma mão e toquei a dela. 

Anos mais tarde, ele pensaria nesse momento antes de morrer, como o mais perto que chegou da personificação do amor.

 Eu, eu sinto muito, não sabia que... Eu queria...
 A vida não reserva mais nada para... Laura e Pedro. O passado apenas assombra, enquanto o destino ri da gente. 

Laura, afinal, não era a anti-heroína da sua história. Ela o amou. Somente ele conseguiu preencher suas lacunas, que eram muitas e que permanecem incompreendidas por ele, por nós. 

Se Pedro tivesse olhado profundamente para ela, talvez ele mesmo tivesse fugido anos atrás. Ah, se Pedro conseguisse enxergar, o tanto que ela vê na escuridão... 

Erllen Nadine


"Há alguns anos, tive um belo final feliz nas mãos, mas deixei escapar. Na noite em que nos vimos pela última vez, eu disse a ela: se cuide. Talvez um dia você escape do seu passado. Se conseguir, me procure." (2046 - Wong K.) 

2 de novembro de 2014

Procura-se Pedro


"For a minute there, I lost myself." Radiohead

Pedro estava sumido, da banca de jornal, da fila do pão, do botequim da Avenida Dutra. De longe, por várias vezes pensei tê-lo visto naquela esquina, de nada adiantou correr, o perdi de vista, o perdi na vida. 

Dentro da noite, Pedro sumiu. Quarto solitário em tons pastel, o cigarro pós-transa não existe mais.

Mentiras que conto em segredo. Quem sumiu noite adentro fui eu. Quem pegou o primeiro táxi para lugar nenhum. Quem deixou o bilhete mal escrito... Eu.

Procura-se Pedro numa cidade onde ele não está. E o que tenho feito de mim nessa busca? Morrendo um pouco a cada dia, cortando raízes por medo de suas profundezas. 

Pe-dro. Nunca mais te verei em dias preguiçosos. Eu me perdi no instante que te abandonei.

L.

(Erllen Nadine)

29 de agosto de 2014

O abismo de Laura

Escrito ao som de El Pintor (Interpol)

Eu acendi mais um cigarro, enquanto ela olhava para estrelas que começavam a desaparecer. Ela insistia em entrar no mar, queria provar que estava tão frio e solitário quanto a sua alma. Eu sei, dava pra sentir.

Era nítido o quanto ela estava perdida: em seu sorriso mudo, seu olhar triste fitando as ondas, seus passos leves em câmera lenta, como se estivesse em um filme francês melancólico, esperando ser retirada dele para viver... ou morrer.

Disse-me mais tarde que chorou enquanto estava numa fila de supermercado, tinha tantos motivos que nem sabia por qual. Entrou em um ônibus sem ter aonde ir. Ficou uma hora embaixo do chuveiro desligado, pensando, não se sabe em quê.

É na beira do abismo que ela se equilibra. É nas ironias do destino que ela se apega. Seu vazio está cheio de poesia. Ela queria fugir. Como fugir dela mesmo?

Eu queria ser personagem de um conto, eles sofrem, mas não sentem dor.
No entanto, Laura é tão real quanto eu.

Erllen Nadine

"O problema dos solitários, é que eles nunca estão sozinhos." 
(Boy Meets Girl, Leos Carax)

19 de fevereiro de 2012

A vida íntima de Laura

Mirage 

"Vida íntima quer dizer que a gente não deve contar todo  
o que se passa na casa da gente." (Clarice Lispector)

Ela não havia mudado muito desde a última vez que a vi exceto pelo cabelo mais escuro e o batom mais vermelho. Ainda possuía o mesmo encanto destruidor. Da sua janela saíam os acordes das bandas undergrounds de Nova York; e os sábados era sua fuga, uma espécie de suicídio para as lembranças, afogadas em cada dose de bebida.

Eu levei semanas para descobrir seu nome, e levaria anos para saber sobre sua vida. No entanto, havia três momentos em que eu sabia exatamente quem ela era.

No bar: eu servia sua bebida, acendia seu cigarro, então falávamos sobre o 'lirismo dos bêbados, dos clowns de Shakespeare', das Mulheres de Bukowski. Éramos amantes, e não seríamos mais que isso.

Na sala: quando eu a fazia perguntas, o silêncio que escorria era a resposta. Ela amava alguém, e por algum motivo não podia mais tê-lo. Pensava nele todos os dias, embora não quisesse.

Na cama: eu gostava de vê-la arrepiada, toda vez que eu beijava sua nuca. Seu coração e corpo despidos em cima do meu, eu tragava teus beijos até o fim.

Laura é um abismo, um abismo irresistível. Ela é inconstante e uma fonte de histórias pela metade. E minha única certeza é que ela é das mulheres que destrói a vida de qualquer um.

Erllen Nadine

"Tão errada. Tão bela. Tão má. Tão Laura." (Jennifer Lynch)

--------------------------------------------------------------------------------

*Laura pertence a esse conto e nasceu aqui.
**O título é o mesmo de um conto da Clarice, a única coisa em comum.
***A citação dentro do texto é de Manuel Bandeira.
****Mulheres (1978) é um romance de Charles Bukowski.

19 de agosto de 2011

Foi embora pela metade

Última sessão - Laura e Pedro
Ouça: Eu Te Amo - Chico

Laura sabia que quando acordasse, ele não estaria mais lá, e sabia também: "inútil dormir que a dor não passa". Pedro partiu do jeito que chegou. Do jeito que ela o deixou.

"Eu não consegui dormir, preferi olhar sua beleza, provavelmente pela última vez. Enquanto você dormia, você murmurou algumas vezes: 'me perdoa, eu te amo'. Acredito em você. Dizer sentimentos quando se está dormindo, deve ser um jeito sincero. É uma pena que hoje em dia, as pessoas só dizem quando já é tarde demais. Eu sei, dizem por aí que quando se trata do amor, nunca é tarde. Mas então insisto em repetir: às vezes é, porque o amor também cansa e vez em quando tira férias. Há um só motivo para eu ficar, mas hoje não. O que é nosso estará sempre em mim, Laura. Um dia, em uma esquina ou na próxima vida, a gente se encontra. E eu não deixarei você desistir.

P.

P.s.: eu te perdoei, bem antes de você pedir perdão."

Laura vestiu-se. Foi comprar cigarros. 
Chegou na esquina como quem espera a próxima vida.

Nadine
"É difícil escrever um final, você tenta reunir as pontas, mas nunca consegue."

27 de julho de 2011

Pra mostrar que ainda sou tua

Sessão VIII - Laura e Pedro

Para quebrar o silêncio e o olhar de angústia, o cansaço de Pedro disse: — Eu tenho que ir embora. Já é tarde. Já falamos tudo e ao mesmo tempo nada, não importa mesmo, seguimos em frente e estamos bem. - Sem pensar se seria rejeitada ou não, Laura pediu: — Não vá, fique. — Não posso. É injusto comigo, com ela também. Laura... eu vou me casar.

As últimas palavras que Pedro pronunciou doeram mais do que qualquer espera ou despedida. Laura deu um passo à frente, ele não se moveu. Os olhos dela começaram a lacrimejar. Ele continuou dizendo: — Perto ou longe, você conseguiu enlouquecer-me. Nem sei ao certo o que sinto. É amor? Mas o que é amor? — Não sei. Amor deve ser muitas coisas ou só uma, a própria loucura quem sabe. Só sei que eu sou a pessoa menos indicada para responder essa pergunta. Eles sorriram, cada vez mais perto um do outro, até que ele disse baixinho: — Nunca vi você chorar.

Ela então o beijou. Ele a beijou também. A vontade de tê-la era mais forte do que qualquer ferida do passado ou vínculo do presente. Cada suspiro entre eles era como dizer "eu nunca vou te esquecer". E assim, deixaram seus corpos em brasas, tornarem-se um só.

"Me debrucei sobre teu corpo. Te arranhei e me agarrei nos teus cabelos, no teu peito. Sem carinho, sem coberta, no tapete, atrás da porta." Chico B.

(...)

Erllen Nadine

17 de julho de 2011

Pra sujar teu nome

Sessão VII - Laura e Pedro

"Te humilhar. E me vingar a qualquer preço, te adorando pelo avesso." 
(Chico B.)

— Posso acender um cigarro?
Foi à primeira coisa que Pedro disse ao chegar à casa de Laura.

Um dia antes, eles reencontraram-se. Ele estava lá a trabalho, ela a passeio. Numa cidade distante de onde tudo terminou, ou seria: começou? Pedro a viu entre pessoas e conversas. Era ela? Sim, era Laura. Os olhos verdes de Laura guiaram-se para a esquerda, encontrando-o. Ela engoliu no seco toda uma vida que deixou para trás, enquanto o coração dele dava pulos. Trocaram poucas palavras. E como dois amantes, combinaram-se indiretamente que queriam se ver, quem sabe tomar uma dose de qualquer coisa.

— Tem cerveja, você quer? - Perguntou Laura. Pedro aceitou, e logo em seguida, disse: — Eu nem sei ao certo porque estou aqui. — Talvez você tenha perguntas e eu tenho as respostas. — Não, Laura. Por muito tempo eu esperei por isso, quis saber os motivos. Mas não importa mais o porquê você ter ido embora. — Queria que tivesse sido diferente, mas não foi. Eu só tinha 19 e nos meus bolsos só haviam sonhos. Não queria me prender ou depender de alguém. Eu queria ser livre e ir buscar o que eu desejava.

A verdade é que Pedro queria ouvir que ela estava arrependida, mas não estava. Ambos tinham refeitos seus caminhos. Ele era noivo. Ela terminou a faculdade e era uma ótima professora de inglês. E por mais que se desprendessem do passado, sempre sobrava algo. Passaram muito tempo falando sobre o que não mais voltava. Perdendo-se entre a cerveja e as palavras que viravam cinzas. Até que o silêncio pairou. (...)

Erllen Nadine

4 de junho de 2011

Era Beatriz

Sessão VI – Laura e Pedro
Um, dois, três... anos.

No começo, o desespero, a espera. Depois, a cama e o cinzeiro preenchidos; coração e copos vazios. Pedro procurou Laura em outros corpos, outros fios de cabelos, olhares, coxas rígidas, sorrisos paralisantes, piadas irritantes, histórias absurdas. Jamais a encontrou.

Do outro lado, o queixo erguido, salto 7, assim Laura aguentava as surras da vida. Apareceram outros caras, outros gostos; nenhum teve importância alguma. Dúvidas e perguntas prevaleceram. A resposta era sempre a mesma: “Eu não nasci pra amar”.

Ele sabia, que uma hora tinha que seguir em frente. Foi o que fez, ou pelo menos estava tentando fazer. Conheceu uma garota, que o fez sorrir. Qualquer um diria que ela era perfeita. Ou quase. O nome dela? Beatriz. E por isso era quase: Era Beatriz, não Laura.


Erllen Nadine

"Ao lado dela, o brilho de Beatriz desaparecia, ofuscado por uma dor que ela ou ele só seriam capazes de compreender mais tarde, se houvesse tempo. E não havia." (Caio F.)

23 de abril de 2011

Lado de lá

Sessão V - Laura e Pedro

Para Rafaela Ivo, que me pediu o lado de quem é abandonado.

Todo dia eu ouço aquele papo machista de que homem não sofre; mas eu tenho coragem o suficiente para admitir o que eu tô passando. Cheguei naquele estágio, de olhar minha cara decadente no espelho e dizer que preciso, que não vivo, sem você. Eu não tô aguentando segurar esses nós. Eu te enxergo nos copos de bebidas, na fumaça dos cigarros. Não consigo dormir, me revirando na cama querendo te encontrar. Tenho vontade de sair te procurando em cada cidade da região. Eu choro, fico sem ar, quero sair correndo e gritando o seu nome; me desespero com esse silêncio, com essa saudade que aperta o peito e a dor que não cessa. Volta, que eu te amo e não me importo com mais nada. Volta, que eu te amo e te convenço a nunca mais ir. Volta e me traz de volta.


P.

Pedro escreveu, sem possibilidade de envio.
Afinal, não sabia onde Laura estava.

Erllen Nadine

"Quando Pedro voltou, estava anoitecendo. E foi como se todas as
luzes da casa se acendessem ao mesmo tempo." (Caio F.)

9 de abril de 2011

Dois em um


Sessão IV - Laura e Pedro

Pedro sempre achou que Laura fosse louca; mas quem ficou louco foi ele: louco por ela. Ela perdeu todos os sonhos, um por um; ao encontrar Pedro, encontrou também a capacidade de sonhar. Ele contou tudo o que vivera até o momento para Laura, e se angustiava, quando percebia que pouco sabia sobre ela. Laura queria poupar Pedro, dos dias amargos que já teve.

A vida ensinou Laura a esquecer, mas tava na hora, dela aprender a amar.
Pedro, que a amava, agora tinha que aprender, a esquecê-la.

Erllen Nadine

1 de abril de 2011

Pedra por dentro

Sessão III - Laura e Pedro

"Fica, eu tenho cerveja, cigarro e o que você quiser" a solidão dizia, antes de ser engolida pela noite.

Laura jamais deixou as pessoas aproximarem-se a ponto de saber o que ela pensava, sentia. O fato é que o coração dela pesava, como conseguiria cuidar de outro? Ela mesma tinha uma pedra por dentro. É que assim, talvez fosse mais fácil. Sempre foi o segundo plano, aprendeu a ser só. Não se daria ao luxo de mudar quem ela era.

A ausência de Pedro tirava a sua roupa, habitava seu coração oco. Às vezes, sem entender, pronunciava o nome dele, como se ele fosse ouvir. Mas a palavra "voltar" não lhe passava pelos pensamentos. Voltar, seria mais doloroso do que ter partido.

Erllen Nadine

"Eu fui embora pela porta da frente, não sobrou nenhuma lembrança." 
(Clementine Kruczynski)

20 de março de 2011

Sentimento maior


                            Sessão II - Laura e Pedro

Nas manhãs seguintes, Pedro ainda conseguia sentir Laura beijando-lhe, enquanto acariciava os frios de cabelos da nunca, para acordá-lo. Mas quando abriu os olhos, ela não estava lá, nenhum vulto sequer.

Conheceram-se numa praça. Ele tirava fotos sei lá de quê, (quase) sem querer a fotografou. Ele perguntou o nome dela, ela perguntou o signo dele. O que para muitos seria bobagem, deixou ele encantado - ninguém costuma fazer esse tipo de pergunta. Um fotógrafo inexperiente, uma garçonete querendo aposentar-se; sentiram necessidade um do outro.

No final do dia, Pedro abria a porta com uma chave de esperança, olhava em volta, o açaí continuava intocado, a bagunça acomodada, nenhuma pista ou bilhete. "Ela tem a chave" pensava, "ela vai voltar" pensava sempre; com tanta certeza, que qualquer barulho a imaginava. Já não sabia o que fazer, com tanto sentimento, maior que ele.

Erllen Nadine


"Volte e invente uma despedida, vamos fingir que tivemos uma." (Joel Barish) 

18 de março de 2011

Me despeço, me despedaço


Sessão I - Laura e Pedro

Antes que Pedro chegasse, Laura escreveu rapidamente:

Para aguentar o cotidiano, imagino você cantando: "Deus sabe o que eu quis foi te proteger, do perigo maior que é você". Sou toda ao contrário. Bruta, quando deveria ficar quieta; fraca, quando deveria suportar a verdade. Minha covardia é tal, que te escrevo, porque não consigo te enfrentar. Me desculpa pelo meu péssimo café, pelo meu péssimo hábito de cortar vínculos. Eu sou assim a vida inteira.

Me despeço, me despedaço.
L.

Foi embora, sem choro, sem hesitar, sem saber aonde ir. As palavras, rasgavam ele todos os dias.

 Nadine

"E se numa esquina qualquer eu te vir, será que você vai fugir?" 
(Los Hermanos)