10 setembro, 2016

Estranhos

Her

"Os casais deveriam se separar no auge da paixão. 
E não esperar o inevitável declínio." 
(Lua de Fel - Polanski)

Passaram anos encarando o silencioso sofrimento um do outro. Nada fizeram quando deveria e agora já não se compreendiam tampouco se amavam. Aos poucos, qualquer banalidade dilacerava.

(noites afora, excesso de cigarro, quando ela o ignorava, a risada sarcástica, a gramática errada... não suportavam... não suportavam ainda se desejarem).

Certa vez, atordoado, ele olhou para o reflexo do espelho e não se viu. Naquele corpo, outra pessoa residia. Alguém mutilado pelos sonhos não concretizados, frustrado pelo amor desperdiçado. No cômodo ao lado, ela tremia, ouvindo os pensamentos dele que ecoavam pelas paredes finas. Respondendo suas próprias perguntas. Não sabia mais conviver com ele, muito menos sem.

(- e o que faço sem você? - o que não estamos fazendo: viver).

Eles eram dois solitários que nunca ficaram sozinhos. Uma paixão atrás da outra, daquelas que faz o coração gritar e depois, nada a dizer. Eram as pessoas erradas no tempo certo. As pessoas certas no tempo errado. Ou ambos. E acabava assim, como sempre acaba. 

Às vezes o amor é rigoroso demais. Você se entrega, mas não é suficiente. Às vezes o amor é tão leve, que se você não cuidar, ele sai das suas veias e ganha o mundo, vai embora sem dizer adeus. E você fica se perguntando o que deu errado, repetindo incansavelmente na mesa de bar, que nunca mais amará. 

Em alguns casos nem é amor. Mas quem sou eu para saber? Eu que não amo há tanto tempo.

Erllen Nadine

escrito ao som de

Um comentário:

  1. O amor é algo que talvez a gente nunca decifre. E viver é um ciclo, amar e desamar, partir e voltar, mudar. Acho que a gente nunca sabe qual é o tempo certo pra amar, muito menos a quem amar, o amor é imprevisível - vem e vai sem ao menos percebermos.

    Beijos, minha moça. ;*

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"Um sorriso que derreta satélites e corações gelados."