21 maio, 2010

Uma vez amei

Se eu morrer muito novo, ouçam isto:
Nunca fui senão uma criança que brincava.
Fui gentil com o sol e a água
De uma religião universal que só os homens não tem
Fui feliz porque não pedi coisa nenhuma
Nem procurei achar nada
Nem achei que houvesse mais explicação. [...]
Não desejei senão estar ao sol ou a chuva
Sentir calor e frio e vento
E não ir mais longe.
Uma vez amei, julguei que me amariam,
Mas não fui amado.
Não fui amado pela única grande razão -
Porque não tinha que ser.

Consolei-me voltando ao sol e à chuva,
E sentando-me outra vez à porta de casa.
Os campos, afinal não são tão verdes para os que
São amados. Como para os que não são.
Sentir é estar distraído.


07/11/1915

(O Eu Profundo e Os Outros Eus - Fernando Pessoa)

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"Um sorriso que derreta satélites e corações gelados."