03/10/2011

Segundo vazio

Faz de conta que nada foi dito. Podemos pular esse dia, não podemos?


Ele tinha os olhos fundos e tristes, estavam vazios a quase um século (podia acreditar facilmente nisso). "— Bola pra frente piá! Erga a cabeça!" ou "— Quero o melhor pra ti, então fique bem... pare de sofrer!" Ouvia constantemente dos amigos. O segundo vazio chegou mais intenso e doloroso (doía a alma), foi quando o guri sentiu saudade do cheiro, do sorriso, do olhar, da voz. Foi nessa época que ele sentiu saudade do toque, do abraço... sentiu saudade de se ancorar nela.

A saudade e o vento que tocavam o corpo dele,
caminhavam juntos em direção ao passado.

— Invadiu meus sonhos, sacudiu minha alma, acabou com a minha calma (...) Ele dizia para si mesmo vagando pela lua.

Eu o ouvia perguntar de onde tinha surgido tanto amor.
Eu, por não poder responder, sofria junto com ele e as interrogações.

As lembranças dele eram acompanhadas das piores facadas recebidas por quem um dia lhe atribuiu um sorriso - desses largos que derretem icebergs inteiros

Eu queria ter te avisado antes, que sorrisos tem prazos
de validade, se desmancham, e o que fica é o silêncio de quem te fez sorrir.

Tudo o que ele sempre quis foi o melhor para os dois. Ela sempre soube dos desejos sinceros do guri. Se entorpeceu de sonhos incinerados, desamores e vodka. Repetiu na quinta, sexta e no sábado. Houve momentos amargos provocados por ressacas morais. Ele chorou por ter visto escorrer por seus dedos, chorou por deixar recados na caixa postal e não receber retornos, chorou por não receber qualquer e-mail. Chorou por imaginar outro em seu lugar. Não sabia o que pedir, então pediu a Deus para dormir uma semana inteira, talvez Agosto inteiro.

Te ajudo com agosto e o desgosto. Fico em você, se você quiser.

Vivia o céu e o inferno. Diariamente tocava as lembranças: sentia o embalo do carro, a pegada nos quadris, a saliva... quase podia olhar nos olhos claros dela, quase podia tocar seus cabelos e acariciar o seu rosto, sentia o gosto dos lábios e de quartas intenções. Com a nostalgia: sentia o gosto do amor inventado que serve somente para distração, quase ouvia a guria falar durante a madrugada, tamanha saudade. Degustava diariamente pedaços de fins, acompanhados de variedades de vazios, em todos os tons de cinzas e pretos. (...)


Nadine e Fabricio