26/10/2011

"... enquanto doía ela olhava os ponteiros."

Amanda Mabel

"E sempre no pingo de tempo que vinha nada acontecia se ela continuava a esperar o que ia acontecer, compreende?" (Perto do Coração Selvagem - Clarice)

Quando cheguei em casa, ele já tinha partido. E se me encontrasse, será que mudaria de ideia? "Não, claro que não" eu disse em voz alta. Não havia bilhete, e nem alguma pista para onde iria ou se voltaria. Saiu tão apressado, que se esqueceu de levar algumas coisas, - esqueceu de me levar. O cheiro da partida se misturava ao dele, logo na entrada. Tinha deixado uma camisa branca, estendida no varal. A mesma camisa que eu vestia algumas vezes antes de dormir, a que nos cobria quando não havia mais lençóis ou outra roupa por perto, a que eu pregava os botões, quando estes insistiam em cair. Esqueceu um livro, o nosso favorito: Clarice Lispector em Perto do Coração Selvagem. Estava entre as minhas coisas, e ele não ousava mexer na minha bagunça. Deixou uma gravata azul, no vazio de uma gaveta. E só. O resto era meu, o que era nosso eu não sabia onde foi parar. Como lembranças que entranham eu precisava me livrar das coisas dele. Dei a camisa para um desconhecido na rua, certamente ele sentia mais frio que eu. Arranquei a primeira página do livro (perdoe-me pela traição) com a dedicatória: "Eu faço mais do que te compreender, eu te amo", com nossos nomes e sobrenomes misturados; o deixei em uma biblioteca, "cuida bem dele, por favor". Como se eu tivesse esquecido, a gravata ficou em cima de uma mesa de bar. Ao sair, ouvi uma voz dizendo: "Moça...". E não era ele.

Restou o amor.
E o que fazer com ele?