Amanda Mabel
"E sempre no pingo de tempo que vinha nada acontecia se ela continuava a esperar o que ia acontecer, compreende?" (Perto do Coração Selvagem)
Quando cheguei em casa, ele já tinha partido. E se me encontrasse, será que mudaria de ideia? "Não, claro que não" eu disse em voz alta. Não havia bilhete, nenhuma pista para onde iria ou se voltaria. Saiu tão apressado, que esqueceu de levar algumas coisas, - esqueceu de me levar. O cheiro da partida se misturava ao dele, logo na entrada. Tinha deixado uma camisa branca, estendida no varal. A mesma camisa que eu vestia algumas vezes antes de dormir, a que nos cobria quando não havia mais lençóis ou outra roupa por perto, a que eu pregava os botões, quando estes insistiam em cair. Esqueceu um livro, o nosso favorito: Perto do Coração Selvagem de Clarice Lispector. Estava entre as minhas coisas e ele não ousava mexer na minha bagunça. Deixou uma gravata azul, no vazio de uma gaveta. E só. O resto era meu, o que era nosso eu não sabia onde foi parar. Como lembranças que entranham, eu precisava me livrar das coisas dele. Dei a camisa para um desconhecido na rua, certamente ele sentia mais frio que eu. Arranquei a primeira página do livro (perdoe-me pela traição) com a dedicatória: "eu faço mais do que te compreender, eu te amo" e o deixei em uma biblioteca. Como se eu tivesse esquecido, a gravata ficou em cima de uma mesa de bar. Ao sair, ouvi uma voz dizendo: "Moça...". E não era ele.
Restou o amor. O que fazer com ele?
Erllen Nadine