26 agosto, 2012

Ela só queria tragar a vida

Escrito ao som de One Last Time (The Kooks). Repetidas vezes.

Era sexta feira. Sem paixão.
Ela estava sentada sozinha na mesa ao lado, eu compartilhava da mesma solidão. Ela tinha um ar de perdida, de quem não prestava atenção na música que estava tocando e de quem só queria estragar a vida. Fumava seu cigarro como se fosse o último, e era. Até que ela me pediu um trago.

Ela queria alguém para conversar e eu só queria escutar. Sua voz soava muito bem, era o barulho que eu precisava para esquecer o silêncio que me deixaram. Dividimos o mesmo cigarro e um meio sorriso. Eu passei a prestar cada vez mais atenção nela. Seu batom vermelho estava quase saindo, o esmalte também. O cabelo preso deixou amostra sua tatuagem, um símbolo. Leão? Ela não olhava diretamente para mim. Medo? Ou não queria que eu soubesse que havia chorado ou não dormia há dias. E quando finalmente ela conseguiu olhar nos meus olhos, eu...:

 Tenho a sensação que você quer dizer algo.
 Mas eu nem te conheço.
 Por isso mesmo.
Ela sorriu, agora por completo. 

Enquanto ela falava de coisas bonitas e outras tristes, eu reparava no modo que as palavras saiam da sua boca e chegavam até mim. Ela não fazia ideia do quanto estava revirando meus sentidos. Eu contei para ela sobre a mudança de planos e de cidade, de ser deixado para trás, das noites insones ouvindo qualquer coisa que curasse a alma. A gente riu, de como é banal estar no fundo do poço. Entre aquela risada e outra bebida, ela desab(af)ou:

  Eu vivi uma ou duas vezes aquilo que as pessoas chamam de amor ou "quase". Sou cheia de histórias pela metade, domingos vazios e beijos selado com despedidas. Ainda tenho marcas do último romance. E faz tanto tempo, que não me lembro do rosto dele, mas sinto. E dói. Eu vi em um filme do Woody Allen que "só o amor incompleto pode ser romântico". Você acredita nisso?
 Eu não sei. Mas cansei desses amores, se for assim, não precisa ser romântico.
Ela sorriu dessa vez com os olhos.

Ela me chamou para conhecer a cidade, contar estrelas. E sussurrou:  Quando falei com você, a música que estava tocando era linda.
Já era sábado. Partilhamos a dor para retirar o "quase" que existia em nós. Às vezes, o amor nasce antes que o sol. Eu a tinha encontrado, como quem espera a música mais linda tocar. E ela? ela só queria tragar a vida. 

Erllen Nadine

Engel and Joe 

Filme: Vicky Cristina Barcelona (2008)

7 comentários:

  1. E como meus olhos brilharam ao ler essas palavras, conseguiu até tirar um meio sorriso do meu coração, que está meio mudo hoje. Acho que foi pq me fez lembrar umas coisas, rs. (Ando precisando contar estrelas, mesmo se for só.) rsrs

    E esse, sem dúvidas, é o melhor texto que já li seu. Perfeito.

    ;*

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  2. Amo o filme, amei o texto, as vezes é bom tragar a vida ^^

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  3. Que lindo.. Seus textos são cada vez mas lindos..

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  4. Impossível a gente não se imaginar vivenciando seus textos, Nadine. Intensos e reais demais!

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  5. Último romance sempre continua a doer, mas o bom é que ainda podemos encontrar outro bem melhor, mesmo que tenhamos de conhecer os telhados da cidade ou de contar as estrelas.

    Lindo, moça :*

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  6. Como ela eu também sou cheia de histórias que não começaram, mas ela curou sua dor.
    Que lindo, lindo, lindo (...) suas palavras me encantam intensamente.

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"Um sorriso que derreta satélites e corações gelados."