02/09/2011

Quando Setembro vier

Ana Camelo

De tão azul, o céu parecerá pintado. E nós embarcaremos rumo à ilhas Cíclades. Houvesse cortinas no quarto, elas tremulariam com a brisa entrando pelas janelas abertas, de manhã bem cedo. Acordei sem a menor dificuldade, espiei a rua em silêncio, muito limpa, as azaléias vermelhas e brancas todas floridas. Parecia que alguém tinha recém pintado o céu, de tão azul. Respirei fundo. O ar puro da cidade levava meus pulmões por dentro. Setembro estava chegando enfim. Na sala, encontrei a mesa posta para o café (...). Tudo estava em paz, no Nordeste, no Oriente Médio, nas Américas Central, do Norte e do Sul (...).

No escritório, abri as gavetas e apanhei a pilha de originais de três anos, manchados de café, de vinho, de tinta e umas gotas escuras que pareciam sangue. Reli rapidamente. E a chave que faltava, há tanto tempo, finalmente pintou. Coloquei papel na máquina, comecei a escrever iluminado, possuído a um só tempo por Kafka, Fitzgerald, Clarice e Fante. Não, Pedro não tinha ido embora, nem Dulce partido, nem Eliana enlouquecido. As terras de Calmaritá realmente existiam: para chegar lá, bastava tomar a estrada e seguir em frente.

Escrevi horas. Sem sentir, cheio de prazer. Quando pensava em parar, o telefone tocou. Então uma voz que eu não ouvia há muito tempo (...), uma voz amorosa falou meu nome, uma voz quente repetiu que sentia uma saudade enorme, uma falta insuportável, e que queria voltar, pediu para irmos às ilhas gregas como tínhamos combinado naquela noite. Se podia voltar, insistiu, para sermos felizes juntos. Eu disse que sim, claro que sim, muitas vezes que sim, e aquela voz repetiu e repetia que me queria desta vez ainda mais, de um jeito melhor e para sempre agora. (...). Leve seu livro, disse. Não esqueça suas partituras, falei (...). Olhei em volta, a empregada tinha colocado para tocar A sagração da primavera, minha mala estava feita. Peguei as originais, gabardine, o chapéu e a mala. Então desci para a limusine que me esperava e embarquei rumo a.

Caio Fernando Abreu,
O Estado de São Paulo, 27/08/1986 - In Pequenas Epifanias

Mês do Caio, pra começarmos bem.