29/01/2012

Com o passar do tempo

Josh

"Foi um tiro de canhão, ou é meu coração batendo?"
Casablanca, de Michael Curtiz (1942)


Na minha cabeça de romancista, cafés combinavam com reencontros e o barulho da chuva era canção sobre os céus. Ela desviava o olhar do meu, procurava uma fuga, na xícara, nos pingos de chuva. Cumprimentamos-nos e sentamos na mesma mesa. Aos poucos, conversávamos sobre tudo, ou quase. Era proibido falar no passado. Uma conversa sobre indie rock'n roll. Sonhos. Da Paixão Segundo G.H. Do cinema antigo.

— Casablanca? Está brincando? É o melhor filme de todos os tempos!
Não discordei. Sorrimos.

Em meu pensamento tocou As Time Goes By. Tive vontade de puxá-la para meus braços. Não mais sumir em nevoeiros, quem sabe fugirmos para Paris. Nada disso eu fiz. E quando um instante de silêncio pairou, ela disse:

— O que você acha que acontece com o amor interrompido?
— Deve virar uma flor, que não volta a desabrochar.

Ela sorriu. Seus olhos eram doces, seu coração estava em chamas. Éramos um ponto de interrogação que machucava às vezes, por não sabermos o que teria acontecido se tivéssemos continuado. Olhamos para o horizonte cinza. E mais uma vez, dissemos adeus sem dizer.

As time goes by nas entrelinhas.
Nosso amor virou flor.

Erllen Nadine

"— O que você faria se ela entrasse por aquela porta?
— Eu diria: (...) O passado não volta."
(Luís F. Veríssimo, na crônica: As time goes by)